Brooklyn, março de 2017

Brooklyn, março de 2017

Semana passada rolou essa festa com quatro bandas. Foram quatro trios, na verdade. Poderia fazer alguma gracinha buzzfeediana tipo “4 x 3: saiba 12 motivos para ouvir essas bandas”, mas se você está aqui não precisa desse tipo de isca, né?

Né.

Foi aquela velha história de sempre. Um inferninho alternativo (Sunnyvale, em Bushwick) recebeu a festa de um selo pequeno (Exploding In Sound Records) organizada por essa turma que faz festas/shows desse tipo (PopGun Presents). O cenário também era o mesmo. Um galpão preparado para receber bastante gente, palco e equipamento de som bem decentes, um barzão lateral com cervejas baratas e um DJ entediado fazendo aquele setzinho arrastado de abertura. Lar doce lar. Fui recebido assim, depois de atravessar o Brooklyn de ônibus e encarar uma caminhada de quase meia hora na eterna Grand St, com -6 graus de alegria congelando o nariz e orelhas. No fundo, estava bem feliz com esse rolê. Quando a gente sai do país e tem que resolver trocentos problemas diferentes para sobreviver, esquece quais eram as expectativas antes de mudar. Na minha cabeça, o Brooklyn meio que sempre foi isso: dar um rolê sinistro para ver umas bandinhas novas em locais estranhos. No meio de todas as outras novidades que só a vida aqui te traz, eu tinha esquecido disso.

O fato é que durante quase toda essa uma hora de trajeto até lá eu fiquei ouvindo os EPs do Palehound, principal show da noite tocado pela jovem e talentosa Ellen Kempner. Passei o dia todo ouvindo as outras bandas também. A fofura quase R&B do Leapling, os exageros do Haybaby e o moldypeachianismos da Tall Friend (que foi o único show que vi pela metade. Mas é isso aí, a sombra de Moldy Peaches em jovens com cara de tédio tocando linhas simples e quase repetitivas que servem de moldura para histórias estranhas). Tudo muito bem feito.

Haybaby (@ohhihaybaby)

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A primeira boa surpresa da noite foi a Haybaby. Provavelmente o show mais enérgico e ligado de todos. O que eu mais curti. Tudo muito simples e bem resolvido, com um contorno espontâneo de anos 90. Aliás, posso dizer tranquilamente que essa foi meio que a vibe da noite: um resgate bem natural do que rolou há 20 anos, sem forçar barra ou parecer friamente calculado. Olhando pra trás, fica a impressão de que o ponto fora da curva foram os anos 2000, quando bandas alternativas saíram das sombras e ganharam o mainstream, ficando totalmente mal acostumadas e com fãs mais deslumbrados ainda. Foi daora mas meio que matou uma cena alternativa que ganha força novamente. Dentro de seus limites, claro. Um bando de mini-Malkmus com a energia do Nirvana. Exagerados e cheios de poses e causas, mas sem acreditar muito nesse personagem.

A melhor parte de ver essas bandas de moleques e seu público é confirmar que várias bandeiras e posicionamentos debatidos nas redes sociais (sempre elas) tão sendo colocados em prática pela molecada. Porque sim. Porque as coisas são assim e não existe mais volta. Não rola mais sutiã, os sovacos estão cabeludos, guris normais e nerds com unhas pintadas, machismos e conservadorismos são combatidos de forma irônica e não são levados a sério. Galera tá adotando os likes que dominam posts e textões do jeito que convém na realidade.

E tá todo mundo curtindo. Vai ser um verão foda.

A própria Kempner falou em uma entrevista que a próxima figura tipo Kurt Cobain será uma mulher:

I strongly believe that whatever next Kurt Cobain-like figure we end up finding will be a woman, and that’s really exciting. It’s kind of an exciting time, honestly.

E é mesmo.

Foi por essas e outras que vim atrás da Palehound. Sediada em Boston, ela colhe hoje os frutos de uma cena alternativa local bem consolidada pela fofura do Speedy Ortiz. Ao vivo, eles ainda soam como frescos e novos mesmo com quase cinco anos de estrada. E ainda descem do palco para vender camisetas e trocar ideias com a galera. Respondem perguntas estranhas. Agradecem. São acanhados. E se entregam no palco.

 

Palehound (@palehoundofficial)- "Pet Carrot"

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“Pet Carrot” é uma das primeiras composições de Kempner e continua atual. Ela brincou dizendo que na primeira entrevista que deu, perguntaram se a música era sobre sua relação com o vibrador. “Ow, então é assim que é uma entrevista”, concluiu.

Foi o mesmo tipo de bola-fora que eu dei com o baixista da Haybaby. Enquanto ele vendia as camisetas da banda, comentei que eles soavam muito melhor ao vivo do que no estúdio. Ele me olhou com cara de “pô, meu…” mas agradeceu educadamente. Horas depois eu li que eles eram considerados como a “banda mais trabalhadora de Nova York”, que se apresentavam sem parar e demoraram anos para gravar alguma coisa. E esse registro só aconteceu ano passado. Ops.

Mas essa saudável mistura da exposição dos palcos, com política e sintonia com o público é muito mais do que uma cena e/ou modinha e/ou resgate… tá mais para mudança de comportamento mesmo. Aquela desilusão de alguns anos atrás sendo combatida no campo coletivo, aproveitando o rolê e fazendo o bem. Algumas pequenas ações que começam a ganhar a mesma força de grandes singles e discos, porque elas são assim. E não tem mais volta.

 

bat country

bat country

“Our vibrations were getting nasty. But why? Was there no communication in this car? Had we deteriorated to the level of dumb beasts?”

Raoul Duke

 

Marrakesh – Vassiliki / uma constatação

Marrakesh – Vassiliki / uma constatação

A melhor coisa que acontece quando você está fora de sua cidade é poder estar livre de qualquer tipo de cilada que grandes-cidades-pequenas te armam diariamente.

Principalmente na área artística.

Principalmente na área artística que envolva eventos noturnos… e você tenha que fazer qualquer tipo de julgamento sobre isso.

Tipo a resenha de um disco.

marrakesh

Tô aqui ouvindo pela primeira vez o EP que a banda Marrakesh lançou no começo do ano. Nunca vi show desses moleques e mal tinha visto informações sobre eles por aí. Descobri que é uma banda vendo snapchats. Apareceu mais uma foto no Instagram perdida pela timeline. Aí, veio a impressão de que a banda poderia ser boa em mais uma postagem no Snap do Insta. Sei que hoje eles tão tocando no lançamento do Trem Fantasma no Jokers, e já rolaram mais algumas postagens nas redes quase com a mesma vontade que mostraram o Wilco no Circo Voador (mentira… tô exagerando).

Aí parei para ouvir o EP deles no Spotify.

Curitiba e eu temos essa relação cheia de manhas, idas e vindas, que já me colocou em exílio antes de fazer o exílio. Alguns meses antes de viajar eu já estava por fora do que rolava por aí. Pode ser defesa. Descaso. Medo. Faça aí sua análise. O ponto é que eu perdi altas coisas que estão rolando (tipo, nunca ouvi Trombone de Frutas. Não me orgulho disso, mesmo vendo postagens deles rolarem por aí, ok? Ou a banda não bateu redonda pra mim, ou as postagens não tão legais. #sinaldostemposcomautoironia).

Precisei vir pra cá de Marrakesh para ouvir uma banda curitibana do jeito certo. Pela primeira vez na vida. Mesmo quando eu nem pensava em morar na Twin Peaks dos Pinheirais e via os discos do Relespública nas prateleiras das lojas. Ou do Skuba.

O EP Vassiliki está por conta própria aqui nos fones. Não sei quem são, onde seus integrantes andam, como se comportam na balada, de que turma eles fazem parte, onde tocaram antes ou deixaram de tocar, quem pegou quem, quem é amigo de quem, quantas minas eles conseguem levar no show, qual é o perfil do público, se são simpáticos, o que eles falaram ou deixaram de falar sobre alguma polêmica atual. Fútil pra caralho, né? Mas é o que acontece antes de você dar o play. Essa é uma prática cagada meio que institucionalizada no jornalismo musical. Desde quanto inventaram o rock e, automaticamente, surgiu o jornalismo pop como conhecemos, sempre existe ego e bastidores envolvido em algum tipo de análise de um trabalho. E muita gente perde tempo lendo coisas negativas, talvez um dos maiores pecados modernos: roubar tempo das pessoas para falar o que elas não precisam fazer/ouvir/ver.

O disco representa bem todas as rasas constatações de que tem um bem-bolado de Mac Demarco, Tame Impala, Real Estate, Twin Peaks, Ariel Pink, King Krule, Connan Mockasin e grande elenco entre suas referências. Levam para os títulos e mensagens toda a herança grega explorada visualmente pelo pop atual. Massa. Também ouvimos pra caralho essas bandas e curtimos essas referências por fora… é sempre bom ter uns moleques locais tocando em sintonia. Mas isso vai longe quando você supera o small talk “que tipo de som eles fazem? tipo Mac Demarco?” e descobre que eles se aprofundaram no verniz que encobre essas bandas… justamente o mesmo lado que te agrada. Que te faz ir atrás dos discos. Que abriu de algum jeito uma sensação boa por aí. Como se você e a Marrakesh tivessem as mesmas músicas preferidas. Ou curtissem as mesmas partes delas. Bate de um jeito que não bateria se tivesse que lidar com futilidades, entende?

Não adianta só dividir a mesma área geográfica com uma banda… Precisa esvaziar o que existe dentro dessas fronteiras e lembrar que em algum momento vocês tiveram o mesmo relance de vida com uma música. Ou duas. Ou três.

Me sinto na mesma vizinhança deles desde sempre. Ouve aí.

Bon Iver – 22, A Million / uma resenha

Bon Iver – 22, A Million / uma resenha

Quem me lembrou que o Bon Iver tinha lançado um disco novo foi uma mina que conheci no Tinder. No meio daquela coisa toda que é considerada PAQUERA hoje em dia, ela disse que não sabia se conseguiria sair do trabalho a tempo de acompanhar a audição pública da nova cria de Justin Vernon. Estava marcado para acontecer em uma festa em Greenpoint, e rolaria simultaneamente em várias outras cidades. A festa em si já era a notícia do dia. Junto com a lembrança de que o disco foi anunciado há alguns dias, no próprio festival de Vernon. Que mundo. Recebi a mensagem no meio da tarde e ela passou batida.

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Na chuvosa manhã de sexta-feira a guria mandou outra mensagem dizendo que tinha perdido o evento, mas o disco combinava com o clima do dia. Faz sentido, na hora lembrei que Justinzão-véi-de-guerra levava a cabana de Wisconsin para qualquer coração solitário que ouvir seu disco em uma manhã chuvosa. Uma fábrica de suspiros e olhares perdidos no nada. Ainda assim, não era minha hora de ouvir o trabalho.

Na chuvosa manhã de sábado (Nova York segue premiada com esse belo começo de outono) eu estava na lavanderia hipnotizado com a roupa que girava prá lá e prá cá com sabão, água, espuma e o reflexo colorido do tênis de uma senhora sentada ao meu lado, quando me liguei que seria a situação perfeita para ouvir o tal disco. Eu tinha tempo, atenção e a dinâmica do ambiente seguia dentro da normalidade. Senhoras dobrando suas roupas, sacos e mais sacos encostados pelos cantos e um cara parecido com o Busta Rhymes flertava com uma guria asiática no que seria o roteiro perfeito de algum filme BBC do Pornhub… Foi aí que começaram os primeiros ruídos de “22, A Million” e meu pensamento instantâneo foi, “odeio esses efeitos em músicas que te dão a impressão de que seu fone de ouvido está com algum problema”. Não zoa.

Quando acabou a primeira música tentei imaginar como devem ter sido essas festas/audições públicas do disco. Imagina que você tá ali do lado do cara e tem que virar pra ele e falar, “daora o disco, meo”. Fiquei meio constrangido em minha silenciosa vergonha alheia… assim como não conseguia responder a pergunta de quando foi que nós perdemos Justin Vernon do radar e ele se transformou nessa versão politicamente correta de Kanye West. Você lembra quando foi isso? No segundo disco? Ao lado da Beyoncé? No EP? Com as crianças da orquestra e os standards de jazz? Em algum Grammy? Saudades da cabana…

Na mesma hora postei isso no Facebook e vi que mais gente tinha feito a relação com Kanye, junto com comentários em pró-qualquer-coisa-que-ele-faça-porque-Bon-Iver-é-amor. Mas Kanye também é amor (próprio).

Começa o processo de tirar a roupa da máquina de lavar e ir até a secadora, o disco já estava na metade e seguia um pouco mais familiar aos ouvidos cansados. Voltei a circular em terreno conhecido… e foi aí que me senti velho. Bon Iver foi o primeiro show que assisti em Nova York, na primeira vez que vim pra cá. Foi em julho de 2008, meses após a descoberta mundial de “For Emma, Forever Ago”. Existia a curiosidade pública de ver o cara que levou o pé na bunda, foi passar uns meses na cabana e voltou com o disco lindo, cheio de texturas metálicas inspiradas em algum clássico de krautrock, brincando com convenções do folk e transformando cada pensamento ruim em falsettos inatingíveis… Foi o show com a plateia mais silenciosa que vi até hoje, mesmo sem ainda saber se é “Bon Aiver” ou “Bon Ivêr”.

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Justin Vernon testa barreiras que acha relevante serem desafiadas nesse novo trabalho. Seja através de um ingênuo deslize ensaiado/fake nas músicas, ou na crença desse patamar overrated onde se encontra atualmente. Eu temia que ele entrasse em um processo parecido com o que rola com a cantora Sia, no qual ela tenta ser tão estranha, mas TAUM estranha… que acaba ficando didática. Mas o cara tá aí, continua desfilando referências para a molecada se identificar e brincar de esconde-esconde em suas músicas, como se fosse uma versão sinestésica do excesso de informação da capa ou da confusão visual nos caractéres dos nomes das músicas. O caso é que Bon Iver continua coerente com toda sua motivação inicial e vive plenamente o ano de 2016. Eu que não saí da cabana e continuo com as roupas limpas.

milhas paralelas: o miles davis de don cheadle

milhas paralelas: o miles davis de don cheadle

O filme Miles Ahead não é uma biopic. Relaxa. Mas também não é uma super pira ficcional. Fanáticos e grandes fãs podem ficar meio desgostosos com o resultado final, mas a audaciosa estreia na direção de Don Cheadle acerta muito mais do que erra. Saí do cinema com os pontos negativos frescos na memória, mas para cada justificativa, surgia uma resposta positiva para a obra. Tive que digerir bem essa experiência… E isso valeu para também fazer o exercício e avaliar a imagem que tenho dessa principal lenda da música do século XX.

São 100 minutos que apresentam uma história criada para ilustrar um misterioso período de crise do músico, com vários flashbacks baseados em fatos reais. Acompanhamos três momentos diferentes de sua biografia; o maior amor (anos 60), a crise artística (final dos 70) e a reflexão (em algum momento dos bizarros anos 80). Don deixa claro que está disposto a ser experimental na narrativa logo nos primeiros minutos do filme – ancorado a uma fala de seu Miles usada como licença poética, “If you’re going to tell a story, come with some attitude man”. Ele deixa no ar que vai começar um solo quando somos transportados para o filme. Don te pega pela mão nessa hora e praticamente desenha a intenção de que sua obra venha no ritmo e intensidade de um solo do Miles. Chega a ser assustador sacar isso logo de cara… No fim, temos um filme bem comportado e didático, com um tom até meio brega.

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Digo isso porque além de “inovar” no roteiro e direção, Cheadle deu claros sinais de que iria explorar a sua visão do Miles na obra. Além de ter bolas para assumir um trabalho treta como esse, ele escreveu, dirigiu e atuou no filme. Já falou sobre o tamanho do respeito que tem pela imagem e legado de Miles, assim como sempre teve noção de que não seria um projeto fácil. Contou com crowdfunding, foi zoado pela família do músico, penou para encontrar uma saída diferente para o enredo e se expôs. Isso não é fácil e Don tem o respeito de muita gente grande por aí. Mas, quem conhece o básico sobre a vida do trompetista, sabe que cair em algum clichê que vive sob sua sombra é uma tarefa bem fácil.

Esse talvez tenha sido um erro primário da direção de Cheadle. Mesmo sendo cirurgicamente econômico nas fatias escolhidas para o filme – assim como bem desapegado com as infinitas outras histórias e casos do músico (cadê Coltrane? Bird? O Gil Evans não ia falar mais?) – ele insiste em mostrar o tempo todo como Miles era cool. Como o legado deixado por ele ainda é mal compreendido e super transgressor. Mesmo na crise, Miles andava armado e sofria com um coração despedaçado na forma mais badass que esse mundo ja viu. Pinta um quadro e surra um jornalista intrometido ao mesmo tempo. A direção beira o deslumbre com isso.

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Cheadle quer criar uma história na qual Miles Davis interpretaria o protagonista, e piraria nisso. Quase como “Don Cheadle interpreta Miles Davis interpretando esse Miles aí do filme” (lembra dele no Miami Vice?). Uma obra imaginária dentro da obra. A saída é boa e temos um bom filme de ação dos anos 70 com uma puta trilha, diálogos ácidos, lutas de boxe e tiroteio.

Só é sempre estranho ver alguém sendo enaltecido durante um período de crise. Sério demais para ser uma produção feita por um fã e raso demais para apresentar qualquer outra análise sobre o músico. Temos um bom começo, o resto depende de você.

“Miles Ahead” é um filme necessário. Especialmente em um ano que (achamos que) perdemos nomes como David Bowie e Prince.

grandes heróis e caras estranhos

grandes heróis e caras estranhos

James Murphy é o segundo maior ser humano vivo, e se a primeira coisa que você pensou lendo isso é “Coachella”, pode terminar de ler o texto por aqui e volta para o Facebook.

Nem vi nada do que rolou esses dias no desertão. Sorry, H&M. Mas o retorno do LCD Soundsystem é uma das notícias mais legais do ano e merece ser festejada enquanto Murphy e sua gang estiverem tocando. Tá rolando um vídeo com uns quarenta minutos do que foi seu retorno no primeiro show em Nova York. Webster Hall recheado de kids saltitantes e corajosos com seus telefones levantados.

Esquenta o coração ver esse bando de gente estranha no palco novamente, mexendo em seus brinquedos caros, vintages e complicados… “que fodem nossas almas”. Cada um em um canto do palco, na crua vibe da luz fria de um estúdio ou o final de noite em um pub qualquer. Depois da saidera. Velhos desajustados que usam e abusam das roupas em tons pastéis e cortes clássicos como se você fosse um filme do Woody Allen no CBGB. Nancy Wang não tá mais massa com esse visual Playmobil-eslovaca, mas o James Murphy continua foda. Sofre e carrega nos ombros o peso de toda uma geração que baba seu ovo. Gente como eu e você que realmente o considera como o segundo maior ser humano vivo e quer ser seu amg. Ficou feliz com ele, sofreu com sua partida e achou que podia tentar ir tomar um vinho em seu bar no Brooklyn. Mas ele voltou, pediu desculpas, marcou uma penca de show e já vai lançar um disco novo. Tá tudo bem agora.

Murphy continua sob o carma da eterna indecisão de Losing My Edge e da exposição de suas impotências (saiam daqui jovens de Berlin, Tokyo, França e Londres). O peso de ter dedurado a principal característica de toda uma geração (aquela que ainda sofre de saudades por quase tudo que aconteceu em 2005. Você e eu, de novo, sempre juntos). Foi uma turma que teve o direito de escolher, acertar, se orgulhar do caminho seguido e querer mostrar para todos. Ou não, mas encontra em sua frustração uma forma de tornar positivo o caminho do outro. As boas ações de hoje chegam sob a moldura de um landscape em .jpg e alguma mensagem inspiradora em helvética. Todos ficam felizes assim. Pela frustração da escolha, pelo tédio, pela ausência de grandes descobertas e no paradoxal orgulho pelos frutos colhidos. Você coloca aqui o fato de ter o carro do ano ou o pleno entendimento de um disco do Gil! Scott! Heron! Somos uma geração que pode escolher e abusou/sofreu com isso. Mas considera sua bolha bem ampla e pronta para ajudar o mundo de qualquer maneira. Mesmo que passando vergonha. O LCD sacou o rolê e James Murphy virou o maior letrista do século XXI (até agora). Uma banda punk e irônica travestida de projeto eletrônico. Ou o contrário.

Mas aí eu fico aqui pensando com meus Eus de outras épocas… para um cara conquistar a geração mais nova que veio na sua sequência, ele não pode ser normal. O cara mais velho, que tem um raciocínio claro sobre a molecada, é deslocado de seu tempo. Um cara que não sabe se comportar com sua geração ou com o que lhe foi oferecido. Ou joga isso tudo de forma distorcida, que bate perfeitamente com os mais jovens. Voltamos para Losing My Edge e suas frustrações usadas como Super Trunfo. James Murphy dizendo que está lá, perdendo espaço para os mais novos, a internet dando um olé, mas ele viu isso tudo e conhece essa pá de gente/disco. Mais uma vez usamos o frutos de nossas escolhas como escudos contra o baixo astral. Para se vangloriar ou virar exemplo em algum post de sucesso do facebook. Se você quer ser um ídolo para os mais jovens, precisa ser o cara estranho da sua sala de aula. Do seu trampo. Do seu rolê. Tem que não entender o que está rolando ou sacar uma nova via. Ou simplesmente ter preguiça disso tudo. Infantilizamos o processo com tais desajustados da preguiça. Mas não estamos errados, já que daqui a pouco a Losing My Edge completa uma década e a gente continua sem saber o que quer

Cadê meus amigos agora para conversarmos sobre isso?

Ou:

Sound of silver talk to me
Makes you want to feel like a teenager
Until you remember the feelings of
A real life emotional teenager
Then you think again

Mas tá tudo bem.

prince 1958 – ∞

prince 1958 – ∞

Lembro bem da reação que tive ao ouvir o discurso que Prince fez no Grammy 2015. A cerimônia seguia no clima de autocelebração-nível-fast-food-da-indústria, com apresentações de jovens artistas e seus trabalhos urgentes para aquele ano. Discursos vazios e causas furadas que acompanham fritas e refrigerante grande na promoção. Eu me questionava até onde isso era válido para a música e tinha algum tipo de retorno na forma de $.  Você começa a perder a esperança na humanidade e vira um velho chato que não pode participar desse tipo de roda de conversa com os amigos.

Na hora da entrega do prêmio de melhor disco do ano (que foi para o belo Morning Phase do Beck), Prince foi direto… com toda sutileza que existe nesse lado da galáxia:

 

“Albums still matter. Like books and black lives, albums still matter”.

 

Ele resumiu o medo que corria pelos Estados Unidos depois dos abusos policiais que causaram a morte de Michael Brown e Eric Garner, assim como sua luta quase quixotesca contra a internet, serviços de streaming, mp3 e tudo mais. São segundos que duram anos de histórias e debates.

Senti um aperto na boca do estômago nesse momento. Desci do troninho da razão que acomoda boa parte dos colegas de profissão e relaxei. Precisamos aceitar certos comportamentos da indústria para que caras como Prince continuem vivos entre nós. Vivos, no presente mesmo. Que seus discos sejam vendidos, ouvidos de cabo a rabo e tenham seus legados devidamente eternizados nos corações de jovens que ainda estão para nascer. Se o Grammy vai contribuir de alguma maneira com isso, também pode lucrar. Todos saem ganhando nessa ingênua (e libertadora) constatação.

***

Não falei nada sobre a morte de David Bowie mas li hoje uma relação bem pertinente: assim como Bowie é um modelo extremamente importante para jovens brancos que não se encaixam em suas realidades, Prince é o equivalente negro. Digo mais: eles são importantes para qualquer um, porque trataram a vida de todos nós como arte.

(gif veio daqui)