Curitiba rebola e não foge da transa

bonde do role

marina, pedro e gorky no primeiro (ou segundo) show do Bonde do Rolê

Criei esse blog para fugir de discussões bairristas sobre Curitiba. Vamos falar da cidade sob o aspecto global… Aproveito o embalo de uma polêmica de umbigo que está rolando (ou a autocelebração desnecessária) para postar o texto que publiquei na edição impressa e bonitona do Defenestrando, que saiu mês passado. Um papo sobre o funk carioca na cidade e um restinho de diversão gratuita que rolou por aqui. Exemplos que tocaram um foda-se e conseguiram sair da zona de conforto.

Justiça seja feita: esqueci de falar do Drunk Disco, Avalanche Tropical e as cutucadas no Boss In Drama. Mas eles serão lembrados na parte II.

O último domingo do pré-carnaval 2013 no Largo da Ordem chegava ao seu final. O bloco Garibaldis e Sacis já tinha terminado o cortejo e o que sobrou era uma série de foliões empolgados e espertalhões que lançavam a sorte para os últimos minutos de festa. Eis que caiu o maior toró já visto na história de um pré-carnaval (imagino/exagero).  Nos abrigamos em um minúsculo guarda-sol instalado em frente ao bar Fidel, junto com mais umas vinte pessoas e o fim de um bloco que mandava umas baladonas funk para agitar a chuva. Foi ai que o Baiano virou e disse, “por isso que os gringos vêm ao Brasil e ficam loucos. Olha isso, chuva, funk, galera animada, domingo e é Curitiba”. Concordei… a cena era bem improvável por aqui. Ai rolou o estalo: O TEXTO SOBRE O FUNK CARIOCA EM CURITIBA QUE O FELIPE TINHA PEDIDO!

Puta merda…

Encontrei o menino Gollnick no dia seguinte e reconheci a cagada; estava quase uma semana atrasado. Mas, pelo menos, já tinha a introdução para a conversa.

Vamos lá…

Coça o saco
Amassa a massa
Recheia o frango
Tem pentelho tem cabelo e até perna de barata
(Tem aqui na esfiha do rolê)
Na esfiha de presunto veio até um dedo junto
(Tem aqui na esfiha do rolê)

Essa vontade de tentar entender e registrar qual é a relação do funk carioca com a cidade é mais um reflexo da forma como encaramos a capital paranaense. Curitiba é uma jovem menina mimada que vive com a constante necessidade de ser agradada e surpreendida. Sempre perguntamos como ela esta, se está feliz, triste, satisfeita ou não. Disponibilidade integral. Tentamos compreender suas necessidades e, em quase todas as noites de cervejas tomadas em botecos sujos espalhados por ai, nos arriscamos para decifrar seus sinais e continuar o mimo. Porém, como uma boa garota difícil que retarda o sexo iminente, as vezes é bom ignorar sua existência para chamar a atenção. Ela cai facilmente no jogo e o flerte continua.

O funk ganhou espaço aqui desse jeito. Aproveitou a brecha dada no gelo da relação para nos autopreservarmos. Funcionou. Foram três moleques “não-artistas” que inverteram a situação e ganharam atenção do mercado exterior antes de Curitiba. Rolou um ciúmes na medida certa. Essa pauta toda, senhoras e senhores, começa com o sucesso do Bonde do Rolê.

A gente somo linda
A gente somo inteligente
A gente somo o trio mais foda
A gente somo delinqüente
Alegria da moçada, da perua a favelada
Nosso som é fantasia pra mamãe, vovó, titia

Lá por 2005 o gosto pelo funk carioca nas baladas já existia mas era velado. Vivíamos uma boa ressaca das novas bandas locais que seguiam reconhecidas pelo cenário nacional – em um impulso dado com a primeira edição do Curitiba Pop Festival e a atenção de toda a mídia especializada do país voltada para cá. Hoje podemos olhar para o passado, de forma mais otimista, e dizer que tínhamos uma cena. Só que ela não vingou. As causas e detalhes ficam para outro artigo do Defenestrando… Mas basta saber que, em boa parte dos shows autorais que rolavam no eixo da Trajano Reis, ouviam-se batidões depois das quatro da manhã.

Entre eles, estavam as primeiras bases e letras de sacanagens criadas por Rodrigo Gorky, Pedro Deyrot e Marina Vello. Pancadas que tremiam as suadas janelas do bar Retrô e ecoavam pela rua lotada por todo tipo de gente. Um carnaval semanal. A história sobre o improvável trio dos pinheirais, que utilizava bases de hard rock e disco music para criar funks, você já sabe. Assim como o fato deles serem descobertos pelo – hoje hypado – produtor Diplo (Mad Decent/Major Lazer) e levarem o nome de Curitiba e das esfihas do Rolê para os principais festivais de música do mundo (Europa, Asia e Estados Unidos). Ganharam fama, ficaram grandes e conhecidos, funkstars, tretaram e perderam a Marina, substituída por novas vocalistas eleitas em um concurso nacional da MTV. O resumo geral do Bonde do Rolê é esse.

Mas, contar a história em detalhes, não é uma tarefa das mais fáceis. A primeira parte da carreira do Bonde do Rolê segue esfumaçada e cheia de lapsos de memória que aterrorizam até hoje boa parte das testemunhas da época. Nas últimas vezes que os integrantes do grupo passaram por aqui, mesmo depois da saída de Marina, eu tentei cutucar algumas lacunas de datas e fatos para montar esse início… e sempre terminava com um “não lembro”.

“Pedro, quantos shows rolaram antes do Bonde ir para a gringa?”

“Cara.. foram uns três acho. No Retrô, outro naquela balada da Batel com o Diplo e o do Era Só o que Faltava, abrindo para o CSS. Sem contar o que fizemos em Floripa… Ou foram quatro shows aqui? Não lembro…”

“Gorky?”

“Acho que foi isso mesmo. Não lembro direito…”

Eu também não lembro. A primeira vez que ouvi as músicas do Bonde foram nos duelos funks que fazíamos nos finais das festas Big Mutha Truckers Party, com as discotecagens de Gorky e Pedro x Trucker e eu. Já vinham encobertas pela neblina enciumada da mimada Curitiba. O importante é a cena marcada (e relevante) junto com a sensação de vê-los pela primeira vez no palco. Aqueles três moleques faziam quase uma hora de show sem pausas, em uma espécie de universo paralelo onde punks rasgados e sujos rebolavam até o chão em uma rave tocada por clássicos das extintas discotecas. Ironia atrás de ironia regadas a escatologia primitiva que não parava de bater e bater. Vinham na crista da onda de uma tendência mundial que estava prestes a estourar e propunha justamente um retorno tribal dos grandes centros urbanos, da moda, música e hábitos. Ninguém sabia disso, nem eles.

Eu só não lembro se esse primeiro show foi do Retrô ou no Era Só o Que Faltava…

Para comprometer mais ainda o paparico que estava em falta com Curitiba, esse sucesso conquistado pelo Bonde já tinha sido rascunhado alguns anos antes, só que em São José dos Pinhais. Estava aberta a porteira para mais pancadão.

e aí charly xyn o que você me conta?
tem uma faca na sua bunda, daquelas de ponta
esse brinquedo, cada uma que ele apronta…
diz aí sha-zan o que mais ele inventou?
da minha coleção nenhum brinquedo sobrou
ele matou os “praymobil”, a barbie ele “estrupou”
nem o vídeo-game o desgraçado perdoou

Com o Bonde do Rolê ultrapassando a altura dos pinherais, não demorou muito para lembrarem dos Manymais e a famigerada história do boneco Chuck. A dupla Charly Xyn e Sha-zan ganhou destaque instantâneo pelo país alguns anos antes, quando sacanearam o Tchan – pegaram o “segura o Tchan” e transformaram em “segura o Chuck”. Era um rap lindão e tosco com um vídeo bizarro idolatrado pelos Piores Clipes do Mundo, da MTV. Eles até esboçaram um retorno para aproveitar o embalo da memória coletiva e a piada requentada pelo Bonde… mas, infelizmente, não foi para frente. Triste.

O que funcionou também foi detonar o umbigo de piercing e atirar para todos os lados com críticas e piadas baixas locais que  podiam ilustrar portas de banheiros públicos. Essa é uma descrição que a turma do Bonde das Impostora (singular mesmo, ô revisor) até poderia se orgulhar, mesmo que atualmente alguns integrantes queiram apagar esse passado recente de suas vidas. Eles usaram o Bonde, James Bar, Lucio Ribeiro, Shopping Curitiba, vinas, leite quente, topetes… e ilustraram histórias bizarras para tocar terror dentro e fora da cidade. Mas era só tipo… no fundo, todos se amavam.

e vai se nóis, vai se nois dominando os baile funk
que rolê que nada as impostora é que são punk
rolê de cu é rola e quem gosta é baitola

Lembro também que essas pancadas não rolavam somente nas baladas modernetes-alternativas… Caio Marques é um cara que aposta até hoje na pegada charmosa do funk e consegue colocar rimas em samba, rock e folk. Desde o Frutos Madurinhos do Amor (em meados dos anos 90), até os improvisos do Bad Folks (anos 00) e a única apresentação de um dos melhores projetos de samba já visto nessa cidade, o Charles Bronson Samba Explosion; Caio estava lá, contando suas histórias urbanas entre batidas e poesias que hoje ecoam em seu trabalho solo. Ele correu pela beirada e também foi longe, com música distribuída em disco encartado no jornal The Guardian e participações em programas de rádio de Nova York. Funk-poesia curitibano.

E o som que eu ouvia repete e desmancha
E parece que já não se ouve o alarme
Ele então se divide, e cada pedaço
Ecoa mais alto na minha cabeça
E não é mais barulho o que vêm da calçada
É não é mais cansaço, eu não sinto mais nada
E a cidade esvazia

Ai você faz a soma do esfumaçado início do Bonde do Rolê junto com essas outras iniciativas funkeiras que surgiram na cidade e tenta encontrar uma relação. Ok, Curitiba, vamos voltar a te paparicar… mas não do jeito que você espera. Esses exemplos lembrados aqui (entre outros desconhecidos) não representam uma cena ou um movimento… é justamente o contrário. São sinais de desapego e de sangue que ainda corre nessas veias artísticas que se levam tão a sério em seus bares e estúdios. Rebole na velocidade 6 do créu, minha cara cidade, e desça até o chão. Você não vai esquecer tão cedo desse tapa de luva. Com amor.

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