Marrakesh – Vassiliki / uma constatação

A melhor coisa que acontece quando você está fora de sua cidade é poder estar livre de qualquer tipo de cilada que grandes-cidades-pequenas te armam diariamente.

Principalmente na área artística.

Principalmente na área artística que envolva eventos noturnos… e você tenha que fazer qualquer tipo de julgamento sobre isso.

Tipo a resenha de um disco.

marrakesh

Tô aqui ouvindo pela primeira vez o EP que a banda Marrakesh lançou no começo do ano. Nunca vi show desses moleques e mal tinha visto informações sobre eles por aí. Descobri que é uma banda vendo snapchats. Apareceu mais uma foto no Instagram perdida pela timeline. Aí, veio a impressão de que a banda poderia ser boa em mais uma postagem no Snap do Insta. Sei que hoje eles tão tocando no lançamento do Trem Fantasma no Jokers, e já rolaram mais algumas postagens nas redes quase com a mesma vontade que mostraram o Wilco no Circo Voador (mentira… tô exagerando).

Aí parei para ouvir o EP deles no Spotify.

Curitiba e eu temos essa relação cheia de manhas, idas e vindas, que já me colocou em exílio antes de fazer o exílio. Alguns meses antes de viajar eu já estava por fora do que rolava por aí. Pode ser defesa. Descaso. Medo. Faça aí sua análise. O ponto é que eu perdi altas coisas que estão rolando (tipo, nunca ouvi Trombone de Frutas. Não me orgulho disso, mesmo vendo postagens deles rolarem por aí, ok? Ou a banda não bateu redonda pra mim, ou as postagens não tão legais. #sinaldostemposcomautoironia).

Precisei vir pra cá de Marrakesh para ouvir uma banda curitibana do jeito certo. Pela primeira vez na vida. Mesmo quando eu nem pensava em morar na Twin Peaks dos Pinheirais e via os discos do Relespública nas prateleiras das lojas. Ou do Skuba.

O EP Vassiliki está por conta própria aqui nos fones. Não sei quem são, onde seus integrantes andam, como se comportam na balada, de que turma eles fazem parte, onde tocaram antes ou deixaram de tocar, quem pegou quem, quem é amigo de quem, quantas minas eles conseguem levar no show, qual é o perfil do público, se são simpáticos, o que eles falaram ou deixaram de falar sobre alguma polêmica atual. Fútil pra caralho, né? Mas é o que acontece antes de você dar o play. Essa é uma prática cagada meio que institucionalizada no jornalismo musical. Desde quanto inventaram o rock e, automaticamente, surgiu o jornalismo pop como conhecemos, sempre existe ego e bastidores envolvido em algum tipo de análise de um trabalho. E muita gente perde tempo lendo coisas negativas, talvez um dos maiores pecados modernos: roubar tempo das pessoas para falar o que elas não precisam fazer/ouvir/ver.

O disco representa bem todas as rasas constatações de que tem um bem-bolado de Mac Demarco, Tame Impala, Real Estate, Twin Peaks, Ariel Pink, King Krule, Connan Mockasin e grande elenco entre suas referências. Levam para os títulos e mensagens toda a herança grega explorada visualmente pelo pop atual. Massa. Também ouvimos pra caralho essas bandas e curtimos essas referências por fora… é sempre bom ter uns moleques locais tocando em sintonia. Mas isso vai longe quando você supera o small talk “que tipo de som eles fazem? tipo Mac Demarco?” e descobre que eles se aprofundaram no verniz que encobre essas bandas… justamente o mesmo lado que te agrada. Que te faz ir atrás dos discos. Que abriu de algum jeito uma sensação boa por aí. Como se você e a Marrakesh tivessem as mesmas músicas preferidas. Ou curtissem as mesmas partes delas. Bate de um jeito que não bateria se tivesse que lidar com futilidades, entende?

Não adianta só dividir a mesma área geográfica com uma banda… Precisa esvaziar o que existe dentro dessas fronteiras e lembrar que em algum momento vocês tiveram o mesmo relance de vida com uma música. Ou duas. Ou três.

Me sinto na mesma vizinhança deles desde sempre. Ouve aí.

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Publicado por: guga azevedo

Guga Azevedo é jornalista formado pela PUC-PR em 2006. Péssimo escritor de sua própria biografia em blogs e rodapés de textos opinativos. Viveu em São Paulo, Recife, Curitiba, Santa Barbara (California), Brooklyn (NYC) e voltou para Curitiba. Dizem. O Grande Escape não é constantemente atualizado, não está nas redes sociais, não tem números absurdos de page views, visualizações únicas ou qualquer outro tipo de informação que o mercado considere relevante hoje (ou que acabe transformando seu autor em referência editorial na web e super descolado nas rodas de descolados que existem por aí). Este blog só existe quando as ideias batem, o tempo sobra e o coração aperta com a vontade de escrever. Up, up and away.

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