beatitude na estrada

Fãs de Jack Kerouac e do clássico On The Road detonam suas unhas enquanto esperam para encarar algumas horas da adaptação do livro para os cinemas. Algumas horas que resumem um livro escrito em três semanas com um romance inspirado em uma trip de sete anos. Uma trip que surgiu para mudar o pensamento de uma época e não teve fim. Caros amigos fãs de Kerouac aqui vai um aviso; Walter Salles não cagou a adaptação. Deve ter sido um trabalho difícil… e o resultado não será o melhor filme de suas vidas ou muito menos a lenha para queimar nas fogueiras de suas bibliotecas. Nem um show de atuação ou roteiro. O resultado vem com as sensações. Se você manter a mente aberta, pode encontrar ali alguns bons complementos para a sua trip.

O que chapa logo de cara é o som. Não o som das festas insanas regadas a bebop e suor conduzidas em descrições que soam como solos de jazz. Kerouac fez isso muito bem e não tem imagem ou música que corte esse barato. O que bate pesado são os sons dos passos nas estradas. Da respiração ofegante. Do sexo. Da chuva e do vento. Do choro, raiva, alegria. Do motor do carro cortando a estrada. Algo que só o cinema pode apresentar… e funciona. Você descobre isso nos primeiros cinco minutos do filme. Fica desarmado com o novo mundo que se abre dentro de uma fatia tão querida e bem guardada em sua memória afetiva; um livro.

Caros amigos que não são fãs de Kerouac, não leram On The Road ou não sabem do que se trata esse filme no qual aparece a menina do Crepúsculo pelada. Aqui vai um aviso; este é um filme parado. Lento. Como uma longa viagem de carro. As paisagens vão e vêm e o tédio de uma vida resumido em uma página branca é trocado por uma estrada vazia. As longas descrições e pensamentos de Kerouac são trocadas por gigantes planos em silêncio. Sem diálogos. Só a ressaca da euforia da juventude tentando fazer sentido nos momentos de calmaria. Você, caro amigo que não sabe onde está se metendo, também precisa manter a mente aberta. Essas partes chatas dizem muito sobre a história que você esta assistindo.

Fãs e não fãs, fica uma nova pergunta no ar; o charmoso Dean Moriarty (ou Neal Cassidy) seria a primeira vítima que sofreu e se perdeu com a liberdade? Hoje sofremos esse mal através de toda a informação que invade nossas vidas diariamente, falando como podemos viver bem, ter tudo, viajar, ganhar o mundo, fazer o que gostamos, comer todas as mulheres, ganhar dinheiro, viver e sobreviver com bases lúdicas. Essa geração beat foi em busca do autoconhecimento e de novas experiências e sensações. Vivia no esquema tecnocrata e tinha sua vida programada, ao mesmo tempo em que descobria os primeiros aspectos da cultura oriental (para o jovem americano dos anos 40 isso fez muita diferença) e era guiada por um pensamento que hoje nos deixa desnorteados; conhecer isso tudo, viver isso tudo, ter isso tudo. Será?

Mas… valeu. Os hippies foram os emos dos anos 60, enquanto os beats foram os caras que meteram a mão na massa (e isso tudo não tem mais nenhuma relação com o filme do Walter Salles. Só um filme).

Com a palavra, Jack Kerouac:

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Publicado por: guga azevedo

:: Brazilian journalist based in Brooklyn - NYC :: Guga Azevedo é jornalista formado pela PUC-PR em 2006. Péssimo escritor de sua própria biografia em blogs e rodapés de textos opinativos. Viveu em São Paulo, Recife, Curitiba, Santa Barbara (California)… e hoje está no Brooklyn (Nova Iorque). O Grande Escape não é constantemente atualizado, não está nas redes sociais, não tem números absurdos de page views, visualizações únicas ou qualquer outro tipo de informação que o mercado considere relevante hoje (ou que acabe transformando seu autor em referência editorial na web e super descolado nas rodas de descolados que existem por aí). Este blog só existe quando as ideias batem, o tempo sobra e o coração aperta com a vontade de escrever. Up, up and away.

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3 comentários sobre “beatitude na estrada”

  1. oi guga! vi o filme ontem e vim ver o que vc tinha escrito sobre ele. achei sim chato e lento. já tinha lido um pouco sobre os beatnicks, mais sobre allen guinsberg, mas nunca cheguei a ler on the road: fiquei curiosa. não tenho o parâmetro do livro, mas achei o filme mais longo que o necessário e não gostei da costura entre os momentos, lugares, episódios. veja bem, não entendo bulhufas de cinema, ahahhaha, pura fruição. bjs! saudades.

    ps: vou ter bebê, soubesse?

    1. mamãe dani! que linda =)
      não esquenta… mas o livro tbm é meio sem costura. é um fluxo de consciência do autor com suas memórias na estrada. no filme a coisa vai mais superficial.

      sabia que carlo é o jovem allen ginsberg?

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