Bon Iver – 22, A Million / uma resenha

Quem me lembrou que o Bon Iver tinha lançado um disco novo foi uma mina que conheci no Tinder. No meio daquela coisa toda que é considerada PAQUERA hoje em dia, ela disse que não sabia se conseguiria sair do trabalho a tempo de acompanhar a audição pública da nova cria de Justin Vernon. Estava marcado para acontecer em uma festa em Greenpoint, e rolaria simultaneamente em várias outras cidades. A festa em si já era a notícia do dia. Junto com a lembrança de que o disco foi anunciado há alguns dias, no próprio festival de Vernon. Que mundo. Recebi a mensagem no meio da tarde e ela passou batida.

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Na chuvosa manhã de sexta-feira a guria mandou outra mensagem dizendo que tinha perdido o evento, mas o disco combinava com o clima do dia. Faz sentido, na hora lembrei que Justinzão-véi-de-guerra levava a cabana de Wisconsin para qualquer coração solitário que ouvir seu disco em uma manhã chuvosa. Uma fábrica de suspiros e olhares perdidos no nada. Ainda assim, não era minha hora de ouvir o trabalho.

Na chuvosa manhã de sábado (Nova York segue premiada com esse belo começo de outono) eu estava na lavanderia hipnotizado com a roupa que girava prá lá e prá cá com sabão, água, espuma e o reflexo colorido do tênis de uma senhora sentada ao meu lado, quando me liguei que seria a situação perfeita para ouvir o tal disco. Eu tinha tempo, atenção e a dinâmica do ambiente seguia dentro da normalidade. Senhoras dobrando suas roupas, sacos e mais sacos encostados pelos cantos e um cara parecido com o Busta Rhymes flertava com uma guria asiática no que seria o roteiro perfeito de algum filme BBC do Pornhub… Foi aí que começaram os primeiros ruídos de “22, A Million” e meu pensamento instantâneo foi, “odeio esses efeitos em músicas que te dão a impressão de que seu fone de ouvido está com algum problema”. Não zoa.

Quando acabou a primeira música tentei imaginar como devem ter sido essas festas/audições públicas do disco. Imagina que você tá ali do lado do cara e tem que virar pra ele e falar, “daora o disco, meo”. Fiquei meio constrangido em minha silenciosa vergonha alheia… assim como não conseguia responder a pergunta de quando foi que nós perdemos Justin Vernon do radar e ele se transformou nessa versão politicamente correta de Kanye West. Você lembra quando foi isso? No segundo disco? Ao lado da Beyoncé? No EP? Com as crianças da orquestra e os standards de jazz? Em algum Grammy? Saudades da cabana…

Na mesma hora postei isso no Facebook e vi que mais gente tinha feito a relação com Kanye, junto com comentários em pró-qualquer-coisa-que-ele-faça-porque-Bon-Iver-é-amor. Mas Kanye também é amor (próprio).

Começa o processo de tirar a roupa da máquina de lavar e ir até a secadora, o disco já estava na metade e seguia um pouco mais familiar aos ouvidos cansados. Voltei a circular em terreno conhecido… e foi aí que me senti velho. Bon Iver foi o primeiro show que assisti em Nova York, na primeira vez que vim pra cá. Foi em julho de 2008, meses após a descoberta mundial de “For Emma, Forever Ago”. Existia a curiosidade pública de ver o cara que levou o pé na bunda, foi passar uns meses na cabana e voltou com o disco lindo, cheio de texturas metálicas inspiradas em algum clássico de krautrock, brincando com convenções do folk e transformando cada pensamento ruim em falsettos inatingíveis… Foi o show com a plateia mais silenciosa que vi até hoje, mesmo sem ainda saber se é “Bon Aiver” ou “Bon Ivêr”.

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Justin Vernon testa barreiras que acha relevante serem desafiadas nesse novo trabalho. Seja através de um ingênuo deslize ensaiado/fake nas músicas, ou na crença desse patamar overrated onde se encontra atualmente. Eu temia que ele entrasse em um processo parecido com o que rola com a cantora Sia, no qual ela tenta ser tão estranha, mas TAUM estranha… que acaba ficando didática. Mas o cara tá aí, continua desfilando referências para a molecada se identificar e brincar de esconde-esconde em suas músicas, como se fosse uma versão sinestésica do excesso de informação da capa ou da confusão visual nos caractéres dos nomes das músicas. O caso é que Bon Iver continua coerente com toda sua motivação inicial e vive plenamente o ano de 2016. Eu que não saí da cabana e continuo com as roupas limpas.

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Publicado por: guga azevedo

:: Brazilian journalist based in Brooklyn - NYC :: Guga Azevedo é jornalista formado pela PUC-PR em 2006. Péssimo escritor de sua própria biografia em blogs e rodapés de textos opinativos. Viveu em São Paulo, Recife, Curitiba, Santa Barbara (California)… e hoje está no Brooklyn (Nova Iorque). O Grande Escape não é constantemente atualizado, não está nas redes sociais, não tem números absurdos de page views, visualizações únicas ou qualquer outro tipo de informação que o mercado considere relevante hoje (ou que acabe transformando seu autor em referência editorial na web e super descolado nas rodas de descolados que existem por aí). Este blog só existe quando as ideias batem, o tempo sobra e o coração aperta com a vontade de escrever. Up, up and away.

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