milhas paralelas: o miles davis de don cheadle

O filme Miles Ahead não é uma biopic. Relaxa. Mas também não é uma super pira ficcional. Fanáticos e grandes fãs podem ficar meio desgostosos com o resultado final, mas a audaciosa estreia na direção de Don Cheadle acerta muito mais do que erra. Saí do cinema com os pontos negativos frescos na memória, mas para cada justificativa, surgia uma resposta positiva para a obra. Tive que digerir bem essa experiência… E isso valeu para também fazer o exercício e avaliar a imagem que tenho dessa principal lenda da música do século XX.

São 100 minutos que apresentam uma história criada para ilustrar um misterioso período de crise do músico, com vários flashbacks baseados em fatos reais. Acompanhamos três momentos diferentes de sua biografia; o maior amor (anos 60), a crise artística (final dos 70) e a reflexão (em algum momento dos bizarros anos 80). Don deixa claro que está disposto a ser experimental na narrativa logo nos primeiros minutos do filme – ancorado a uma fala de seu Miles usada como licença poética, “If you’re going to tell a story, come with some attitude man”. Ele deixa no ar que vai começar um solo quando somos transportados para o filme. Don te pega pela mão nessa hora e praticamente desenha a intenção de que sua obra venha no ritmo e intensidade de um solo do Miles. Chega a ser assustador sacar isso logo de cara… No fim, temos um filme bem comportado e didático, com um tom até meio brega.

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Digo isso porque além de “inovar” no roteiro e direção, Cheadle deu claros sinais de que iria explorar a sua visão do Miles na obra. Além de ter bolas para assumir um trabalho treta como esse, ele escreveu, dirigiu e atuou no filme. Já falou sobre o tamanho do respeito que tem pela imagem e legado de Miles, assim como sempre teve noção de que não seria um projeto fácil. Contou com crowdfunding, foi zoado pela família do músico, penou para encontrar uma saída diferente para o enredo e se expôs. Isso não é fácil e Don tem o respeito de muita gente grande por aí. Mas, quem conhece o básico sobre a vida do trompetista, sabe que cair em algum clichê que vive sob sua sombra é uma tarefa bem fácil.

Esse talvez tenha sido um erro primário da direção de Cheadle. Mesmo sendo cirurgicamente econômico nas fatias escolhidas para o filme – assim como bem desapegado com as infinitas outras histórias e casos do músico (cadê Coltrane? Bird? O Gil Evans não ia falar mais?) – ele insiste em mostrar o tempo todo como Miles era cool. Como o legado deixado por ele ainda é mal compreendido e super transgressor. Mesmo na crise, Miles andava armado e sofria com um coração despedaçado na forma mais badass que esse mundo ja viu. Pinta um quadro e surra um jornalista intrometido ao mesmo tempo. A direção beira o deslumbre com isso.

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Cheadle quer criar uma história na qual Miles Davis interpretaria o protagonista, e piraria nisso. Quase como “Don Cheadle interpreta Miles Davis interpretando esse Miles aí do filme” (lembra dele no Miami Vice?). Uma obra imaginária dentro da obra. A saída é boa e temos um bom filme de ação dos anos 70 com uma puta trilha, diálogos ácidos, lutas de boxe e tiroteio.

Só é sempre estranho ver alguém sendo enaltecido durante um período de crise. Sério demais para ser uma produção feita por um fã e raso demais para apresentar qualquer outra análise sobre o músico. Temos um bom começo, o resto depende de você.

“Miles Ahead” é um filme necessário. Especialmente em um ano que (achamos que) perdemos nomes como David Bowie e Prince.

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