Marrakesh – Vassiliki / uma constatação

A melhor coisa que acontece quando você está fora de sua cidade é poder estar livre de qualquer tipo de cilada que grandes-cidades-pequenas te armam diariamente.

Principalmente na área artística.

Principalmente na área artística que envolva eventos noturnos… e você tenha que fazer qualquer tipo de julgamento sobre isso.

Tipo a resenha de um disco.

marrakesh

Tô aqui ouvindo pela primeira vez o EP que a banda Marrakesh lançou no começo do ano. Nunca vi show desses moleques e mal tinha visto informações sobre eles por aí. Descobri que é uma banda vendo snapchats. Apareceu mais uma foto no Instagram perdida pela timeline. Aí, veio a impressão de que a banda poderia ser boa em mais uma postagem no Snap do Insta. Sei que hoje eles tão tocando no lançamento do Trem Fantasma no Jokers, e já rolaram mais algumas postagens nas redes quase com a mesma vontade que mostraram o Wilco no Circo Voador (mentira… tô exagerando).

Aí parei para ouvir o EP deles no Spotify.

Curitiba e eu temos essa relação cheia de manhas, idas e vindas, que já me colocou em exílio antes de fazer o exílio. Alguns meses antes de viajar eu já estava por fora do que rolava por aí. Pode ser defesa. Descaso. Medo. Faça aí sua análise. O ponto é que eu perdi altas coisas que estão rolando (tipo, nunca ouvi Trombone de Frutas. Não me orgulho disso, mesmo vendo postagens deles rolarem por aí, ok? Ou a banda não bateu redonda pra mim, ou as postagens não tão legais. #sinaldostemposcomautoironia).

Precisei vir pra cá de Marrakesh para ouvir uma banda curitibana do jeito certo. Pela primeira vez na vida. Mesmo quando eu nem pensava em morar na Twin Peaks dos Pinheirais e via os discos do Relespública nas prateleiras das lojas. Ou do Skuba.

O EP Vassiliki está por conta própria aqui nos fones. Não sei quem são, onde seus integrantes andam, como se comportam na balada, de que turma eles fazem parte, onde tocaram antes ou deixaram de tocar, quem pegou quem, quem é amigo de quem, quantas minas eles conseguem levar no show, qual é o perfil do público, se são simpáticos, o que eles falaram ou deixaram de falar sobre alguma polêmica atual. Fútil pra caralho, né? Mas é o que acontece antes de você dar o play. Essa é uma prática cagada meio que institucionalizada no jornalismo musical. Desde quanto inventaram o rock e, automaticamente, surgiu o jornalismo pop como conhecemos, sempre existe ego e bastidores envolvido em algum tipo de análise de um trabalho. E muita gente perde tempo lendo coisas negativas, talvez um dos maiores pecados modernos: roubar tempo das pessoas para falar o que elas não precisam fazer/ouvir/ver.

O disco representa bem todas as rasas constatações de que tem um bem-bolado de Mac Demarco, Tame Impala, Real Estate, Twin Peaks, Ariel Pink, King Krule, Connan Mockasin e grande elenco entre suas referências. Levam para os títulos e mensagens toda a herança grega explorada visualmente pelo pop atual. Massa. Também ouvimos pra caralho essas bandas e curtimos essas referências por fora… é sempre bom ter uns moleques locais tocando em sintonia. Mas isso vai longe quando você supera o small talk “que tipo de som eles fazem? tipo Mac Demarco?” e descobre que eles se aprofundaram no verniz que encobre essas bandas… justamente o mesmo lado que te agrada. Que te faz ir atrás dos discos. Que abriu de algum jeito uma sensação boa por aí. Como se você e a Marrakesh tivessem as mesmas músicas preferidas. Ou curtissem as mesmas partes delas. Bate de um jeito que não bateria se tivesse que lidar com futilidades, entende?

Não adianta só dividir a mesma área geográfica com uma banda… Precisa esvaziar o que existe dentro dessas fronteiras e lembrar que em algum momento vocês tiveram o mesmo relance de vida com uma música. Ou duas. Ou três.

Me sinto na mesma vizinhança deles desde sempre. Ouve aí.

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Bon Iver – 22, A Million / uma resenha

Quem me lembrou que o Bon Iver tinha lançado um disco novo foi uma mina que conheci no Tinder. No meio daquela coisa toda que é considerada PAQUERA hoje em dia, ela disse que não sabia se conseguiria sair do trabalho a tempo de acompanhar a audição pública da nova cria de Justin Vernon. Estava marcado para acontecer em uma festa em Greenpoint, e rolaria simultaneamente em várias outras cidades. A festa em si já era a notícia do dia. Junto com a lembrança de que o disco foi anunciado há alguns dias, no próprio festival de Vernon. Que mundo. Recebi a mensagem no meio da tarde e ela passou batida.

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Na chuvosa manhã de sexta-feira a guria mandou outra mensagem dizendo que tinha perdido o evento, mas o disco combinava com o clima do dia. Faz sentido, na hora lembrei que Justinzão-véi-de-guerra levava a cabana de Wisconsin para qualquer coração solitário que ouvir seu disco em uma manhã chuvosa. Uma fábrica de suspiros e olhares perdidos no nada. Ainda assim, não era minha hora de ouvir o trabalho.

Na chuvosa manhã de sábado (Nova York segue premiada com esse belo começo de outono) eu estava na lavanderia hipnotizado com a roupa que girava prá lá e prá cá com sabão, água, espuma e o reflexo colorido do tênis de uma senhora sentada ao meu lado, quando me liguei que seria a situação perfeita para ouvir o tal disco. Eu tinha tempo, atenção e a dinâmica do ambiente seguia dentro da normalidade. Senhoras dobrando suas roupas, sacos e mais sacos encostados pelos cantos e um cara parecido com o Busta Rhymes flertava com uma guria asiática no que seria o roteiro perfeito de algum filme BBC do Pornhub… Foi aí que começaram os primeiros ruídos de “22, A Million” e meu pensamento instantâneo foi, “odeio esses efeitos em músicas que te dão a impressão de que seu fone de ouvido está com algum problema”. Não zoa.

Quando acabou a primeira música tentei imaginar como devem ter sido essas festas/audições públicas do disco. Imagina que você tá ali do lado do cara e tem que virar pra ele e falar, “daora o disco, meo”. Fiquei meio constrangido em minha silenciosa vergonha alheia… assim como não conseguia responder a pergunta de quando foi que nós perdemos Justin Vernon do radar e ele se transformou nessa versão politicamente correta de Kanye West. Você lembra quando foi isso? No segundo disco? Ao lado da Beyoncé? No EP? Com as crianças da orquestra e os standards de jazz? Em algum Grammy? Saudades da cabana…

Na mesma hora postei isso no Facebook e vi que mais gente tinha feito a relação com Kanye, junto com comentários em pró-qualquer-coisa-que-ele-faça-porque-Bon-Iver-é-amor. Mas Kanye também é amor (próprio).

Começa o processo de tirar a roupa da máquina de lavar e ir até a secadora, o disco já estava na metade e seguia um pouco mais familiar aos ouvidos cansados. Voltei a circular em terreno conhecido… e foi aí que me senti velho. Bon Iver foi o primeiro show que assisti em Nova York, na primeira vez que vim pra cá. Foi em julho de 2008, meses após a descoberta mundial de “For Emma, Forever Ago”. Existia a curiosidade pública de ver o cara que levou o pé na bunda, foi passar uns meses na cabana e voltou com o disco lindo, cheio de texturas metálicas inspiradas em algum clássico de krautrock, brincando com convenções do folk e transformando cada pensamento ruim em falsettos inatingíveis… Foi o show com a plateia mais silenciosa que vi até hoje, mesmo sem ainda saber se é “Bon Aiver” ou “Bon Ivêr”.

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Justin Vernon testa barreiras que acha relevante serem desafiadas nesse novo trabalho. Seja através de um ingênuo deslize ensaiado/fake nas músicas, ou na crença desse patamar overrated onde se encontra atualmente. Eu temia que ele entrasse em um processo parecido com o que rola com a cantora Sia, no qual ela tenta ser tão estranha, mas TAUM estranha… que acaba ficando didática. Mas o cara tá aí, continua desfilando referências para a molecada se identificar e brincar de esconde-esconde em suas músicas, como se fosse uma versão sinestésica do excesso de informação da capa ou da confusão visual nos caractéres dos nomes das músicas. O caso é que Bon Iver continua coerente com toda sua motivação inicial e vive plenamente o ano de 2016. Eu que não saí da cabana e continuo com as roupas limpas.

milhas paralelas: o miles davis de don cheadle

O filme Miles Ahead não é uma biopic. Relaxa. Mas também não é uma super pira ficcional. Fanáticos e grandes fãs podem ficar meio desgostosos com o resultado final, mas a audaciosa estreia na direção de Don Cheadle acerta muito mais do que erra. Saí do cinema com os pontos negativos frescos na memória, mas para cada justificativa, surgia uma resposta positiva para a obra. Tive que digerir bem essa experiência… E isso valeu para também fazer o exercício e avaliar a imagem que tenho dessa principal lenda da música do século XX.

São 100 minutos que apresentam uma história criada para ilustrar um misterioso período de crise do músico, com vários flashbacks baseados em fatos reais. Acompanhamos três momentos diferentes de sua biografia; o maior amor (anos 60), a crise artística (final dos 70) e a reflexão (em algum momento dos bizarros anos 80). Don deixa claro que está disposto a ser experimental na narrativa logo nos primeiros minutos do filme – ancorado a uma fala de seu Miles usada como licença poética, “If you’re going to tell a story, come with some attitude man”. Ele deixa no ar que vai começar um solo quando somos transportados para o filme. Don te pega pela mão nessa hora e praticamente desenha a intenção de que sua obra venha no ritmo e intensidade de um solo do Miles. Chega a ser assustador sacar isso logo de cara… No fim, temos um filme bem comportado e didático, com um tom até meio brega.

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Digo isso porque além de “inovar” no roteiro e direção, Cheadle deu claros sinais de que iria explorar a sua visão do Miles na obra. Além de ter bolas para assumir um trabalho treta como esse, ele escreveu, dirigiu e atuou no filme. Já falou sobre o tamanho do respeito que tem pela imagem e legado de Miles, assim como sempre teve noção de que não seria um projeto fácil. Contou com crowdfunding, foi zoado pela família do músico, penou para encontrar uma saída diferente para o enredo e se expôs. Isso não é fácil e Don tem o respeito de muita gente grande por aí. Mas, quem conhece o básico sobre a vida do trompetista, sabe que cair em algum clichê que vive sob sua sombra é uma tarefa bem fácil.

Esse talvez tenha sido um erro primário da direção de Cheadle. Mesmo sendo cirurgicamente econômico nas fatias escolhidas para o filme – assim como bem desapegado com as infinitas outras histórias e casos do músico (cadê Coltrane? Bird? O Gil Evans não ia falar mais?) – ele insiste em mostrar o tempo todo como Miles era cool. Como o legado deixado por ele ainda é mal compreendido e super transgressor. Mesmo na crise, Miles andava armado e sofria com um coração despedaçado na forma mais badass que esse mundo ja viu. Pinta um quadro e surra um jornalista intrometido ao mesmo tempo. A direção beira o deslumbre com isso.

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Cheadle quer criar uma história na qual Miles Davis interpretaria o protagonista, e piraria nisso. Quase como “Don Cheadle interpreta Miles Davis interpretando esse Miles aí do filme” (lembra dele no Miami Vice?). Uma obra imaginária dentro da obra. A saída é boa e temos um bom filme de ação dos anos 70 com uma puta trilha, diálogos ácidos, lutas de boxe e tiroteio.

Só é sempre estranho ver alguém sendo enaltecido durante um período de crise. Sério demais para ser uma produção feita por um fã e raso demais para apresentar qualquer outra análise sobre o músico. Temos um bom começo, o resto depende de você.

“Miles Ahead” é um filme necessário. Especialmente em um ano que (achamos que) perdemos nomes como David Bowie e Prince.

grandes heróis e caras estranhos

James Murphy é o segundo maior ser humano vivo, e se a primeira coisa que você pensou lendo isso é “Coachella”, pode terminar de ler o texto por aqui e volta para o Facebook.

Nem vi nada do que rolou esses dias no desertão. Sorry, H&M. Mas o retorno do LCD Soundsystem é uma das notícias mais legais do ano e merece ser festejada enquanto Murphy e sua gang estiverem tocando. Tá rolando um vídeo com uns quarenta minutos do que foi seu retorno no primeiro show em Nova York. Webster Hall recheado de kids saltitantes e corajosos com seus telefones levantados.

Esquenta o coração ver esse bando de gente estranha no palco novamente, mexendo em seus brinquedos caros, vintages e complicados… “que fodem nossas almas”. Cada um em um canto do palco, na crua vibe da luz fria de um estúdio ou o final de noite em um pub qualquer. Depois da saidera. Velhos desajustados que usam e abusam das roupas em tons pastéis e cortes clássicos como se você fosse um filme do Woody Allen no CBGB. Nancy Wang não tá mais massa com esse visual Playmobil-eslovaca, mas o James Murphy continua foda. Sofre e carrega nos ombros o peso de toda uma geração que baba seu ovo. Gente como eu e você que realmente o considera como o segundo maior ser humano vivo e quer ser seu amg. Ficou feliz com ele, sofreu com sua partida e achou que podia tentar ir tomar um vinho em seu bar no Brooklyn. Mas ele voltou, pediu desculpas, marcou uma penca de show e já vai lançar um disco novo. Tá tudo bem agora.

Murphy continua sob o carma da eterna indecisão de Losing My Edge e da exposição de suas impotências (saiam daqui jovens de Berlin, Tokyo, França e Londres). O peso de ter dedurado a principal característica de toda uma geração (aquela que ainda sofre de saudades por quase tudo que aconteceu em 2005. Você e eu, de novo, sempre juntos). Foi uma turma que teve o direito de escolher, acertar, se orgulhar do caminho seguido e querer mostrar para todos. Ou não, mas encontra em sua frustração uma forma de tornar positivo o caminho do outro. As boas ações de hoje chegam sob a moldura de um landscape em .jpg e alguma mensagem inspiradora em helvética. Todos ficam felizes assim. Pela frustração da escolha, pelo tédio, pela ausência de grandes descobertas e no paradoxal orgulho pelos frutos colhidos. Você coloca aqui o fato de ter o carro do ano ou o pleno entendimento de um disco do Gil! Scott! Heron! Somos uma geração que pode escolher e abusou/sofreu com isso. Mas considera sua bolha bem ampla e pronta para ajudar o mundo de qualquer maneira. Mesmo que passando vergonha. O LCD sacou o rolê e James Murphy virou o maior letrista do século XXI (até agora). Uma banda punk e irônica travestida de projeto eletrônico. Ou o contrário.

Mas aí eu fico aqui pensando com meus Eus de outras épocas… para um cara conquistar a geração mais nova que veio na sua sequência, ele não pode ser normal. O cara mais velho, que tem um raciocínio claro sobre a molecada, é deslocado de seu tempo. Um cara que não sabe se comportar com sua geração ou com o que lhe foi oferecido. Ou joga isso tudo de forma distorcida, que bate perfeitamente com os mais jovens. Voltamos para Losing My Edge e suas frustrações usadas como Super Trunfo. James Murphy dizendo que está lá, perdendo espaço para os mais novos, a internet dando um olé, mas ele viu isso tudo e conhece essa pá de gente/disco. Mais uma vez usamos o frutos de nossas escolhas como escudos contra o baixo astral. Para se vangloriar ou virar exemplo em algum post de sucesso do facebook. Se você quer ser um ídolo para os mais jovens, precisa ser o cara estranho da sua sala de aula. Do seu trampo. Do seu rolê. Tem que não entender o que está rolando ou sacar uma nova via. Ou simplesmente ter preguiça disso tudo. Infantilizamos o processo com tais desajustados da preguiça. Mas não estamos errados, já que daqui a pouco a Losing My Edge completa uma década e a gente continua sem saber o que quer

Cadê meus amigos agora para conversarmos sobre isso?

Ou:

Sound of silver talk to me
Makes you want to feel like a teenager
Until you remember the feelings of
A real life emotional teenager
Then you think again

Mas tá tudo bem.

prince 1958 – ∞

Lembro bem da reação que tive ao ouvir o discurso que Prince fez no Grammy 2015. A cerimônia seguia no clima de autocelebração-nível-fast-food-da-indústria, com apresentações de jovens artistas e seus trabalhos urgentes para aquele ano. Discursos vazios e causas furadas que acompanham fritas e refrigerante grande na promoção. Eu me questionava até onde isso era válido para a música e tinha algum tipo de retorno na forma de $.  Você começa a perder a esperança na humanidade e vira um velho chato que não pode participar desse tipo de roda de conversa com os amigos.

Na hora da entrega do prêmio de melhor disco do ano (que foi para o belo Morning Phase do Beck), Prince foi direto… com toda sutileza que existe nesse lado da galáxia:

 

“Albums still matter. Like books and black lives, albums still matter”.

 

Ele resumiu o medo que corria pelos Estados Unidos depois dos abusos policiais que causaram a morte de Michael Brown e Eric Garner, assim como sua luta quase quixotesca contra a internet, serviços de streaming, mp3 e tudo mais. São segundos que duram anos de histórias e debates.

Senti um aperto na boca do estômago nesse momento. Desci do troninho da razão que acomoda boa parte dos colegas de profissão e relaxei. Precisamos aceitar certos comportamentos da indústria para que caras como Prince continuem vivos entre nós. Vivos, no presente mesmo. Que seus discos sejam vendidos, ouvidos de cabo a rabo e tenham seus legados devidamente eternizados nos corações de jovens que ainda estão para nascer. Se o Grammy vai contribuir de alguma maneira com isso, também pode lucrar. Todos saem ganhando nessa ingênua (e libertadora) constatação.

***

Não falei nada sobre a morte de David Bowie mas li hoje uma relação bem pertinente: assim como Bowie é um modelo extremamente importante para jovens brancos que não se encaixam em suas realidades, Prince é o equivalente negro. Digo mais: eles são importantes para qualquer um, porque trataram a vida de todos nós como arte.

(gif veio daqui)

tropical elevation

Esse é nosso tempo. Acompanhamos o retorno ao jazz feito pelas pistas de dança (culpa do queridão Flying Lotus) só que sempre precisamos de mais salsa nessas chips. Simples, direta, picante e clara. Era óbvio que o Quantic vingaria nesse contexto.

Quantic é o nome de guerra utilizado pelo britânico Will Holland para divulgar seus trabalhos. Ele se transformou, ao mesmo tempo, em uma espécie de selo de qualidade sonora que reúne diferentes ritmos, estilos, eras, países e idiomas. Ganha sua confiança musical e te apresenta grandes sons. Na medida. Como se fosse o bróder que manja demais do riscado e sempre vem com uma dica boa. Este é o Quantic das minhas playlists… e é nesse clima que vi seu show no Velvet Jones, em Santa Barbara.

quantic_velvetjones_santabarbara_2016

E foi bem foda.

A história começa com o simples anúncio de seu show. Como será que o cara tá se apresentando agora? Será só uma discotecagem? A banda vem junto? Continua nas piras colombianas? Vai seguir o embalo de seus trampos mais antigos? Mas será que podemos definir qual é “a pegada” do Quantic? Bingo.

Holland começou sua carreia de fato – não seus primeiros trabalhos com música – em 2000/2001. Lançou composições, discos, singles e EPs como DJ e produtor, sempre trabalhando o lado mais orgânico, mais quente, mais tropical e mais suingado. Esses primeiros discos são bem recomendados, e seria o melhor ponto de partida para você conhecer sua cabeça. O que vem depois é tudo isso, só que gravado em estúdio e devidamente arranjado por ele. Fino. Circulou super bem entra a turma que reúne DJ Shadow, RJD2, Bonobo, Nightmares On Wax, Thievery Corporation, Gramatik, e companhia limitada. Música eletrônica para quem não é da música eletrônica. Jazz e ritmos latinos para quem não é do Jazz e ritmos latinos. Repito: são como Cavalos de Tróia sonoros… quando estão dentro da sua vida, te pegam no susto.

O show é mais uma surpresa boa. Ao contrário de tudo que estava imaginado, a apresentação é bem simples. São três músicos e uma cantora. Quantic fica na guitarra. O que rola ali em cima é uma versão instrumental de todas as suas incursões étnicas. Do dowtempo ao calor tropical. Holland acaba de voltar de uma temporada de sete anos morando na Colômbia. Trouxe um baterista monstro que o acompanha na turnê, dicas cenográficas e malandragem da América do Sul. Deixou de ser um inglês observador que tem a manha das pistas e o bom gosto musical para assumir o papel de produtor e pagar na mesma moeda.

Essa turnê está apenas começando. Vai terminar o rolê pelos EUA para fazer alguns shows na Europa em Maio. Oremos pela América do Sul.

 

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Lembrando que:

_fotos postadas: http://ello.co/guga (yeap, ainda uso essa rede)
_para acompanhar ao vivo no snapchat: @gugaazevedo
_e logo depois no Instagram: https://www.instagram.com/gugaazevedo/

Os movimentos de Filipinho

A nova edição da revista Surfer deu um belo destaque para Filipe Toledo. A publicação colocou o paulista como principal nome entre as promessas do surf para 2016. E o timing foi perfeito, principalmente depois da abertura dos trabalhos do ano com o CT em Gold Coast. Matt Wilkinson levou o primeiro lugar mas a glória foi toda do brasileiro. Ele ficou na terceira posição e saiu machucado do evento, com a promessa de retornar para a etapa do Rio.

E é justamente o Oi Rio Pro de 2015 uma das passagens mais legais do papo que ele teve com a revista. Apesar da exagerada reação que rolou na areia (a gente curte um drama, né?), aquele público reunido na praia e sua energia foram grandes surpresas para todos os envolvidos. Rola aí uma discussão sobre patrocínios e as próximas gerações de surfistas.

Entre o intocável Gabriel Medina e o CDF Mineirinho, Filipe sempre foi nosso “dark horse” como é falado na entrevista. Mas a torcida é de que ele se transforme em nossa aposta principal. Você pode conferir o material completo da Surfer aqui ó.

Como você pode ver, as fotos foram devidamente retiradas do site da Surfer. 😉

sobre um homem do bem

 

A figura de Leon Bridges já é curiosa por si só. Um jovem e desconhecido cantor que surgiu em festivais colaborativos no Texas para desfilar pelo mundo. A mistura torta de Mosf Def com Otis Redding: alma velha em um corpo de criança do hip hop. E seu show é fino. Todos os sentidos abertos para o mundo que existe entre os púlpitos de igreja e inferninhos da música negra. Esses dois universos ligados por momentos de tentação, baixos pesados, beatitude, órgãos e cordas quebradas. Um campo que começou a ser melhor explorado em nossa geração por Jack White e abriu a porteira para o novo-velho rock sulista de bandas como Elli “Paperboy” Reed e Alabama Shakes. No meio dessa abdução do passado e nova digestão, encontramos Leon Bridges.

Segurava o violão sozinho no palco. Jeans de cintura alta, camiseta branca, topete e óculos grossos. Parecia um jovem retirado dos anos 50, na cidade de Austin. Foi a imagem que surgiu no primeiro vídeo que vi no Youtube, durante uma apresentação do festival Sofar. Ele cantava a história de sua mãe. Peito aberto e versos de Lisa Sawyer que virou minha preferida. Agora, rodeado por músicos com ternos bem cortados e postura impecável, Bridges sustenta um cabelo mais curto e visual elegante. A cada intervalo das músicas, uma contraluz valoriza a bem delineada silhueta esguia de cada um.

Não estamos mais acostumados com tanta honestidade e exposição de um jovem artista. Principalmente os desconhecidos. Hoje, todos surgem com algum planejamento bem traçado e até estratégia de atuação. Sabem as regras do jogo desde sempre. Deveriam ensinar marketing e administração junto com as aulas de música. (Tá. Concordo que esse offtopic seja uma grande evolução na vida de qualquer banda iniciante. Só que é uma postura que abre espaço para público e jornalistas terem dois pensamentos diferentes: 1) quem são esses caras? como eu gostei deles assim rápido? o que eles querem de mim? e o 2) não me interessa. stop. fecha janela. tchau). Definitivamente, não estamos mais acostumados com a honestidade de Leon Bridges.

O investiram inicial foi para esse lado e o resultado é o melhor possível. No palco, a mistura entre displicência juvenil quase arrogante, com o charme na falta de traquejo, segue equilibrada pelo peso precocemente maturado de suas composições. Isso que você encontra na turnê que roda desde janeiro de 2015 (um mês antes do lançamento de seu primeiro disco, Coming Home, veja bem), e que passou por Santa Barbara na última sexta-feira. Bridges encontrou um Arlington Theatre completamente lotado por pessoas de todas as idades e estereótipos. É sempre um encanto ver os mais idosos que ainda frequentam shows. O jovem cantor reúne uma leva de fãs com idade bem avançada, assim como os já citados Alabama Shakes. Vi a banda ao vivo em setembro de 2015, em Nova York, para um público super misturado. Parecia uma grande festa de família. Toda vez que rola o debate sobre “o fim do rock e música pop”, lembro desses exemplos e esquento o coração. Tenho pena de quem não vive a experiência de olhar para fora da panelinha e ver coisas incríveis acontecendo. Para eles, o rock vai acabar logo com toda certeza.

Os primeiros passos na história do rock e soul music, resgatados por Leon, surgem mais pesados no palco. E cheios de fé. Sua banda é formada por amigos que o conheciam antes da fama. Ele conta essa história enquanto apresenta cada integrante. Junto com o pedido de desculpas pela possível falta de atenção ou simpatia com o público. “Desculpem. Ainda sou novo nesse mundo”. O pacote da inocência entra em ação. Funciona.

As músicas são mais robustas ao vivo e, pelo que é apresentado, suas novas composições já estão saindo com mais peso. Teremos surpresas, pode apostar.

_fotos postadas: http://ello.co/guga (yeap, ainda uso essa rede)
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😉

Hermano

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Outubro/2015. Terça-feira, 8h da manhã no aeroporto de Santiago, Chile.

Tudo certo por aqui. A vida acorda lentamente com poucas lojas abertas e alguns sonolentos funcionários que sofrem para sorrir. Faz frio e uma neblina cobre o que pode ser uma parte da Cordilheira dos Andes que surge na vista do salão de embarque. O Chile parece ser um país legal de viver. Povo bonito e simpático, Ilha de Páscoa, Patagônia, vinhos, Pacífico. Tudo devidamente protegido pelas Cordilheiras (que ainda não apareceram). Não sei por que só agora, depois de quase 15 horas de voos (fora o chá de cadeira) eu resolvi escrever algo. A parada no aeroporto de Lima já foi uma pequena aventura. Mesmo não tendo visto absolutamente nada… Minha posição geográfica era suficiente. O movimento é sexy, dizia o poeta.

Sentado aqui na sala do portão 20A, esperando meu terceiro voo dessa jornada dividida em quatro partes, eu penso que a vida no Chile pode ser boa. Um país que parece ter uma rotina pacata, jeitão de interior e forte relação com as montanhas. Existem famosos surfistas que encaram suas ondas gigantescas nos mares do sul. Os desertos e o melhor observatório da Via Láctea na Terra. Dá para imaginar isso? Chile parece ser demais aqui da sala de embarque. O tapete predominantemente verde que cobre a extensa área de embarque é a continuação das montanhas que estão logo ali atrás. Não faço a menor ideia em qual região de Santiago nós estamos ou o que tem ao redor do aeroporto, mas, esse tapete verde, com os detalhes de madeira espalhados pela sala e a vista das montanhas te jogam para qualquer fuga campestre pacata. Fora da bagunça.

Grandes histórias podem ser vividas aqui. Altos rangos  e bons vinhos. Sabia que vendem salmão enlatado da Patagônia no duty free? E você pode encontrar foie gras logo ao lado. Portas abertas para encarar a Ásia. Deve ser uma manhã de terça-feira clássica em Santiago. Nublada, com uma estrada lá no fundo que beira as montanhas, estrangeiros esbanjando sotaques pelas cadeiras, aviões indo e voltando. A vida parece ótima aqui, já falei isso? Um especial de snapchat mental mostra o que deve estar rolando ao redor. No fim, me encanta saber como é o dia a dia arrastado em lugares que nunca imaginei estar. Como será uma manhã de sexta-feira em Dubai? Tarde de domingo em Johanesburgo? A noite da segunda-feira no México? Espaço e tempo que organizam detalhes de cada lugares exóticos espalhados por aí. Tudo isso devidamente embalado pela tontura dessas quase 15 horas de voo.

(Ou sera que o Chile está me presenteando com um terremoto? A conferir).

Ps. Era tontura mesmo. Texto escrito dia 06/10/2015. Ou 05.

o império bilionário das marias joanas

A recente edição da Newsweek estampa na capa este belo debate; um jogo de ideias de como o comércio legal da maconha nos Estados Unidos é um mercado cada vez mais dominado pelas mulheres. A influência feminina começa desde o nome da marijuana (maria joana), passa pela produção e clonagem de plantas fêmeas e termina com mulheres bem sucedidas que peitaram as responsabilidades e tretas jurídicas para produção legal da erva. Promete ser o primeiro comércio bilionário tocado por elas, segundo a publicação. De cara, já é o cenário com o melhor modelo de mundo ideal para qualquer ser humano viver.

Mais para o norte e pensando no crescimento organizado desse mercado, professores canadenses da Kwantlen Polytechnic University, em British Columbia, desenvolveram um curso on-line chamado Introdução à Gestão Profissional de Maconha para Fins Medicinais no Canadá. Tá aqui, ó. Segundo Jim Pelton, diretor da Universidade, foram feitas algumas pesquisas que indicaram a necessidade de pessoas treinadas para assumirem postos estratégicos nesse crescente mercado. “Nosso trabalho é responder às necessidades de formação da industria”, complementa.

Por um mundo com mais mulheres no comando e mais faculdades canadenses.