wakanda forever

Durante um período da minha vida no Brooklyn eu passava diariamente em frente ao The Museum of Contemporary African Diasporan Arts (MoCADA) no caminho para o bar onde trabalhava. Lembro bem das vitrines com merchandise e acessórios ligados à cultura africana junto com cartazes das exposições. Sua fundação tem como objetivo principal manter viva a chama da herança africana no condado, principalmente durante o processo de revitalização que o centro comercial do Brooklyn passa há alguns anos. São mostras e provocações que acompanham o mesmo ritmo do surgimento de novos prédios e frios conjuntos habitacionais na área. Cor e calor para nos lembrarmos que aquilo ali não é nenhuma Manhattan. O Brooklyn é treta, tem alma e aprendeu a sobreviver na babilônia, se transformando no principal modelo de resistência e resiliência para seus habitantes que encaram as mesmas adversidades diariamente. Uma personagem/modelo viva na vida de todos.

Lá no meio dos produtos dispostos na vitrine do MoCADA estava uma edição reunida da saga A Nation Under Our Feet, responsável pelo resgate editorial de Black Panther em abril de 2016. A edição #1 foi a revista mais vendida nos Estados Unidos no mês de lançamento. Algumas quadras antes dali, a loja de uma rede de livrarias locais só tinha edições dessa mesma revista como opção de quadrinhos disponíveis para venda. Mais nada. O mesmo acontecia com várias outras livrarias pequenas, lojas de discos e lojas de produtos étnicos. Era como se a cidade inteira, silenciosamente, se posicionasse exibindo uma orgulhosa e bem cuidada curadoria de suas principais obras para o mundo notar. E não se engane, A Nation Under Our Feet merece essa atenção.

O autor dessa história mora no bairro ao lado. Ta-Nehisi Coates é escritor, jornalista, professor e uma das principais vozes no debate racial e político que cruza o globo. Tem passagens bem relevantes pela redação da The Atlantic, Time, Village Voice e Washington Post, além de ser o dono de um dos livros mais comentados do ano passado, a coletânea We Were Eight Years In Power: An American Tragedy. A obra reúne ensaios escritos durante os oito anos da gestão de Obama no país. Mais uma cutucada editorial nas bochechas alaranjadas de Trump.

Coates é hoje cotado como sucessor ao posto deixado por seu mestre, James Baldwin, tanto nas reflexões sociais quanto produção literária. Além de A Nation Under Our Feet ele também escreveu algumas outras sagas para o herói (ao lado da The Crew). Foi sua estreia no mundo das HQs e essas revistas já devem ter sido lançadas no Brasil. Você também encontra fácil a versão em inglês por aí.

 

 

Saí da sessão de Pantera Negra  pensando nessas histórias de Coates, maravilhado com Wakanda e na forma como a tradição da cultura africana e o peso de sua diáspora pelo mundo foram trabalhados para um público que pode estar preocupado apenas com cenas de ação e as Jóias do Infinito de Thanos. Também reforcei o ponto que tinha com meus botões, de que a Marvel vai muito melhor com filmes de personagens não tão conhecidos/amados de seu panteão (como Guardiões da Galáxia e Doutor Estranho – Homem Formiga flopou e deixo essa discussão para outro post).

Se você não assistiu nenhum filme da Marvel até hoje pode ir ver Pantera sem problemas. Todas as peças que precisa ter para entender os dilemas do jovem rei T’Challa são apresentadas na produção. A obra não é necessariamente um filme de origem do herói (já que vimos sua estreia em Guerra Civil), mas sem dúvida é a apresentação de uma das mais incríveis mitologias do universo cinematográfico da Marvel. O que torna esse filme maior além de toda rede de referências e absorção do herói fora das telas.

Wakanda vive e rouba a cena: como terra prometida escondida, como utopia híbrida de alta tecnologia e tradição, como lar de mulheres fodonas, como palco de debates que abordam o que realmente importa na agenda atual. O jovem diretor Ryan Coogler conduz um elenco estelar para recriar de maneira majestosa o paraíso africano que nasceu na mente de Jack Kirby. O mundo que todos lutamos para viver.

Visualmente ele respeita as possibilidades para a tradição africana transbordar elegantemente na tela; tanto nos desenhos das roupas e estampas, quanto na arquitetura moderna/orgânica, o caos neutro das ruas, cabelos, acessórios tecnológicos, naves e tudo mais que uma cidade do futuro africano merece. As mulheres são fortes como leoas. Tem a escarificação do vilão que eterniza mortes em seu corpo, as pinturas faciais, uso das máscaras e a incorporação de espíritos, técnicas de batalha inspiradas em Shaka Zulu… o peso da história do continente e a memória de todos que contribuíram de alguma maneira em seu desenvolvimento.

Afrofuturismo na melhor forma… é o Afropunk explicando ao Burning Man como ser cool.

E eu travei: Wakanda, Coates, tradição, diáspora…

❤ Shuri ❤

Muito boa a sintonia que rola entre Coogler e o excelente Michael B. Jordan desde Fruitvale Station, se fortaleceu em Creed e seguiu bem com o vilão Killmonger. Nessa entrevista aí na sequência o diretor explica melhor como foi feita a escolha dos atores e papéis (lembrando que Chadwick Boseman e outros nomes já tinham sido escolhidos pela Marvel, junto com alguns caminhos seguidos no roteiro e adaptação) e revela que a história precisava de um ator forte para segurar a onda do vilão tão bem construído. Você acredita em B. Jordan e sabe que o embate entre os dois é necessário e autêntico: o respeito pelas raízes x cuidar dos frutos espalhados pelo mundo. Todos gostamos de vilões.

A melhor parte de entrar na cabeça de Coogler é ver como as obras têm ligações diretas com sua vida: em Creed ele optou por abordar a relação de pai e filho, já que seu pai era um grande fã de Rocky Balboa. Com Pantera Negra, o diretor estreita laços com o continente africano e com os movimentos negros, contribuindo de forma saudável e bem objetiva.

Tira aí 50 minutos da vida para ver essa entrevista com ele. Tá bem boa:

Enquanto isso, nos quadrinhos, Ta-Nehisi Coates criou uma Wakanda em crise na série publicada em 2016 (o que seria uma bela continuação para um possível Black Panther 2. Já explico…), além de apresentar um vilão tão bom quanto Killmonger e uma motivação no mesmo nível. Dessa vez o povo se volta contra o rei T’Challa e uma série de ataques espalhados pelo país desestabiliza a coroa. O responsável por isso é Tetu, uma espécie de terrorista que usa medidas extremas para “cuidar” do país e resgatar o valor de sua história. Um roteiro denso, que pega uma Wakanda em reconstrução após ser inundada por Namor (desse rolê eu tô por fora) e ser atacada por Thanos (o que nos abre a brecha para um possível SPOILER em Guerra Infinita – mas se aconteceu nos quadrinhos, não quer dizer que vai acontecer nos filmes. Aí vai: nesse ataque, o Titã mata Shuri, irmã de T’Challa e uma das personagens mais queridas e fofas do filme. Quase uma princesa da Disney. No enredo ela já tinha assumido o manto de Pantera Negra. FIM DO [possível] SPOILER).

Temos aqui grandes elementos para o herói ficar ainda maior em filmes futuros.

Coates mergulha nas referências das lições da Africa pré-colonial, os efeitos das rebeliões europeias no final da Idade Média, Guerra Civil Americana, Primavera árabe e até mesmo a origem do ISIS. O mais interessante é que ele revela que isso tudo também vem do leitor de 9 anos de idade que ainda mora dentro dele e quer vibrar com seu herói superando as “grandes responsabilidades que chegam com o poder”. Ele cita Chris Claremont e Tom DeFalco como influências ao lado de Hemingway e Fitzgerald… Não tem como dar errado. O próprio autor te explica melhor isso tudo.

Não fui tão longe para saber qual é o nível de influência de Coates na adaptação cinematográfica de Coogler, mas já esbarrei com a notícia de que eles trabalham juntos em uma outra adaptação para os cinemas que também conta com B. Jordan. A ideia é levar para as telas a história do artigo Wrong Answer, escrito por Rachel Aviv para a New Yorker em 2014.

Pantera Negra mostra só a ponta desse espírito da diáspora africana mais vivo do que nunca e nos relembra que essa luta não depende somente de um herói ou rei. Sua imagem é importante, mas o posicionamento individual é a melhor forma de contribuição na valorização cultural e social. Seja na seleção de gibis vendidos em uma livraria ou no recorde mundial nas bilheterias com a estreia do filme; carregamos a cicatriz histórica que se transformou em uma das principais fontes de amor e calor na alma desse planetinha triste que habitamos…  essa herança vive para evoluirmos ainda mais com ela, mas mesmo assim ainda temos muito o que melhorar até chegar em Wakanda.

PS. Você achou mesmo que eu não ia falar de música, né? =D

O quão foda está essa trilha sonora cuidadosamente selecionada pelo homem da vez, Kendrick Lamar? Rap no flow de batidas africanas e uma reunião de artistas tão estelar quanto o elenco do filme.

Anúncios

Publicado por: guga azevedo

:: Brazilian journalist based in Brooklyn - NYC :: Guga Azevedo é jornalista formado pela PUC-PR em 2006. Péssimo escritor de sua própria biografia em blogs e rodapés de textos opinativos. Viveu em São Paulo, Recife, Curitiba, Santa Barbara (California)… e hoje está no Brooklyn (Nova Iorque). O Grande Escape não é constantemente atualizado, não está nas redes sociais, não tem números absurdos de page views, visualizações únicas ou qualquer outro tipo de informação que o mercado considere relevante hoje (ou que acabe transformando seu autor em referência editorial na web e super descolado nas rodas de descolados que existem por aí). Este blog só existe quando as ideias batem, o tempo sobra e o coração aperta com a vontade de escrever. Up, up and away.

Categorias entretenimento, lifestyleTags, , , , , 1 comentário

Um comentário sobre “wakanda forever”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s