wakanda forever

Durante um período da minha vida no Brooklyn eu passava diariamente em frente ao The Museum of Contemporary African Diasporan Arts (MoCADA) no caminho para o bar onde trabalhava. Lembro bem das vitrines com merchandise e acessórios ligados à cultura africana junto com cartazes das exposições. Sua fundação tem como objetivo principal manter viva a chama da herança africana no condado, principalmente durante o processo de revitalização que o centro comercial do Brooklyn passa há alguns anos. São mostras e provocações que acompanham o mesmo ritmo do surgimento de novos prédios e frios conjuntos habitacionais na área. Cor e calor para nos lembrarmos que aquilo ali não é nenhuma Manhattan. O Brooklyn é treta, tem alma e aprendeu a sobreviver na babilônia, se transformando no principal modelo de resistência e resiliência para seus habitantes que encaram as mesmas adversidades diariamente. Uma personagem/modelo viva na vida de todos.

Lá no meio dos produtos dispostos na vitrine do MoCADA estava uma edição reunida da saga A Nation Under Our Feet, responsável pelo resgate editorial de Black Panther em abril de 2016. A edição #1 foi a revista mais vendida nos Estados Unidos no mês de lançamento. Algumas quadras antes dali, a loja de uma rede de livrarias locais só tinha edições dessa mesma revista como opção de quadrinhos disponíveis para venda. Mais nada. O mesmo acontecia com várias outras livrarias pequenas, lojas de discos e lojas de produtos étnicos. Era como se a cidade inteira, silenciosamente, se posicionasse exibindo uma orgulhosa e bem cuidada curadoria de suas principais obras para o mundo notar. E não se engane, A Nation Under Our Feet merece essa atenção.

O autor dessa história mora no bairro ao lado. Ta-Nehisi Coates é escritor, jornalista, professor e uma das principais vozes no debate racial e político que cruza o globo. Tem passagens bem relevantes pela redação da The Atlantic, Time, Village Voice e Washington Post, além de ser o dono de um dos livros mais comentados do ano passado, a coletânea We Were Eight Years In Power: An American Tragedy. A obra reúne ensaios escritos durante os oito anos da gestão de Obama no país. Mais uma cutucada editorial nas bochechas alaranjadas de Trump.

Coates é hoje cotado como sucessor ao posto deixado por seu mestre, James Baldwin, tanto nas reflexões sociais quanto produção literária. Além de A Nation Under Our Feet ele também escreveu algumas outras sagas para o herói (ao lado da The Crew). Foi sua estreia no mundo das HQs e essas revistas já devem ter sido lançadas no Brasil. Você também encontra fácil a versão em inglês por aí.

 

 

Saí da sessão de Pantera Negra  pensando nessas histórias de Coates, maravilhado com Wakanda e na forma como a tradição da cultura africana e o peso de sua diáspora pelo mundo foram trabalhados para um público que pode estar preocupado apenas com cenas de ação e as Jóias do Infinito de Thanos. Também reforcei o ponto que tinha com meus botões, de que a Marvel vai muito melhor com filmes de personagens não tão conhecidos/amados de seu panteão (como Guardiões da Galáxia e Doutor Estranho – Homem Formiga flopou e deixo essa discussão para outro post).

Se você não assistiu nenhum filme da Marvel até hoje pode ir ver Pantera sem problemas. Todas as peças que precisa ter para entender os dilemas do jovem rei T’Challa são apresentadas na produção. A obra não é necessariamente um filme de origem do herói (já que vimos sua estreia em Guerra Civil), mas sem dúvida é a apresentação de uma das mais incríveis mitologias do universo cinematográfico da Marvel. O que torna esse filme maior além de toda rede de referências e absorção do herói fora das telas.

Wakanda vive e rouba a cena: como terra prometida escondida, como utopia híbrida de alta tecnologia e tradição, como lar de mulheres fodonas, como palco de debates que abordam o que realmente importa na agenda atual. O jovem diretor Ryan Coogler conduz um elenco estelar para recriar de maneira majestosa o paraíso africano que nasceu na mente de Jack Kirby. O mundo que todos lutamos para viver.

Visualmente ele respeita as possibilidades para a tradição africana transbordar elegantemente na tela; tanto nos desenhos das roupas e estampas, quanto na arquitetura moderna/orgânica, o caos neutro das ruas, cabelos, acessórios tecnológicos, naves e tudo mais que uma cidade do futuro africano merece. As mulheres são fortes como leoas. Tem a escarificação do vilão que eterniza mortes em seu corpo, as pinturas faciais, uso das máscaras e a incorporação de espíritos, técnicas de batalha inspiradas em Shaka Zulu… o peso da história do continente e a memória de todos que contribuíram de alguma maneira em seu desenvolvimento.

Afrofuturismo na melhor forma… é o Afropunk explicando ao Burning Man como ser cool.

E eu travei: Wakanda, Coates, tradição, diáspora…

<3 Shuri <3

Muito boa a sintonia que rola entre Coogler e o excelente Michael B. Jordan desde Fruitvale Station, se fortaleceu em Creed e seguiu bem com o vilão Killmonger. Nessa entrevista aí na sequência o diretor explica melhor como foi feita a escolha dos atores e papéis (lembrando que Chadwick Boseman e outros nomes já tinham sido escolhidos pela Marvel, junto com alguns caminhos seguidos no roteiro e adaptação) e revela que a história precisava de um ator forte para segurar a onda do vilão tão bem construído. Você acredita em B. Jordan e sabe que o embate entre os dois é necessário e autêntico: o respeito pelas raízes x cuidar dos frutos espalhados pelo mundo. Todos gostamos de vilões.

A melhor parte de entrar na cabeça de Coogler é ver como as obras têm ligações diretas com sua vida: em Creed ele optou por abordar a relação de pai e filho, já que seu pai era um grande fã de Rocky Balboa. Com Pantera Negra, o diretor estreita laços com o continente africano e com os movimentos negros, contribuindo de forma saudável e bem objetiva.

Tira aí 50 minutos da vida para ver essa entrevista com ele. Tá bem boa:

Enquanto isso, nos quadrinhos, Ta-Nehisi Coates criou uma Wakanda em crise na série publicada em 2016 (o que seria uma bela continuação para um possível Black Panther 2. Já explico…), além de apresentar um vilão tão bom quanto Killmonger e uma motivação no mesmo nível. Dessa vez o povo se volta contra o rei T’Challa e uma série de ataques espalhados pelo país desestabiliza a coroa. O responsável por isso é Tetu, uma espécie de terrorista que usa medidas extremas para “cuidar” do país e resgatar o valor de sua história. Um roteiro denso, que pega uma Wakanda em reconstrução após ser inundada por Namor (desse rolê eu tô por fora) e ser atacada por Thanos (o que nos abre a brecha para um possível SPOILER em Guerra Infinita – mas se aconteceu nos quadrinhos, não quer dizer que vai acontecer nos filmes. Aí vai: nesse ataque, o Titã mata Shuri, irmã de T’Challa e uma das personagens mais queridas e fofas do filme. Quase uma princesa da Disney. No enredo ela já tinha assumido o manto de Pantera Negra. FIM DO [possível] SPOILER).

Temos aqui grandes elementos para o herói ficar ainda maior em filmes futuros.

Coates mergulha nas referências das lições da Africa pré-colonial, os efeitos das rebeliões europeias no final da Idade Média, Guerra Civil Americana, Primavera árabe e até mesmo a origem do ISIS. O mais interessante é que ele revela que isso tudo também vem do leitor de 9 anos de idade que ainda mora dentro dele e quer vibrar com seu herói superando as “grandes responsabilidades que chegam com o poder”. Ele cita Chris Claremont e Tom DeFalco como influências ao lado de Hemingway e Fitzgerald… Não tem como dar errado. O próprio autor te explica melhor isso tudo.

Não fui tão longe para saber qual é o nível de influência de Coates na adaptação cinematográfica de Coogler, mas já esbarrei com a notícia de que eles trabalham juntos em uma outra adaptação para os cinemas que também conta com B. Jordan. A ideia é levar para as telas a história do artigo Wrong Answer, escrito por Rachel Aviv para a New Yorker em 2014.

Pantera Negra mostra só a ponta desse espírito da diáspora africana mais vivo do que nunca e nos relembra que essa luta não depende somente de um herói ou rei. Sua imagem é importante, mas o posicionamento individual é a melhor forma de contribuição na valorização cultural e social. Seja na seleção de gibis vendidos em uma livraria ou no recorde mundial nas bilheterias com a estreia do filme; carregamos a cicatriz histórica que se transformou em uma das principais fontes de amor e calor na alma desse planetinha triste que habitamos…  essa herança vive para evoluirmos ainda mais com ela, mas mesmo assim ainda temos muito o que melhorar até chegar em Wakanda.

PS. Você achou mesmo que eu não ia falar de música, né? =D

O quão foda está essa trilha sonora cuidadosamente selecionada pelo homem da vez, Kendrick Lamar? Rap no flow de batidas africanas e uma reunião de artistas tão estelar quanto o elenco do filme.

todo dia é dia de sade

O post surgiu na timeline e parecia mais uma ação especial dos caras do East River Tattoo no Brooklyn. Só que logo na sequência veio uma print de um artigo do The New York Times com o título “Sade’s quiet storm of cool” – um sacado jogo de palavras com a letra de The Sweetest Taboo. O texto dizia que um cliente mané do estúdio escreveu uma resenha ruim no Yelp reclamando que eles estavam ouvindo Sade no local. Segundo seu comentário, Sade é “música de sala de espera de cirurgiões plástico”. A resposta dos tatuadores não poderia ter sido melhor:

O NYT usou essa passagem como gancho para discutir a importância silenciosa da cantora/banda Sade. O artigo é delicioso (vai o link novamente)  e aborda toda influência seletiva deles no mundo da música, moda e comportamento. Impressiona como a grande maioria realmente compactua com o pensamento do mané do Yelp, ignorando que essa mistura sexy de jazz, soul e ritmos caribenhos não poderia estar encontrando um lugar melhor na história. Além de Kanye e a turma do hip hop, nomes de outros rolês como Poolside e Star Slinger são exemplos de outras esferas da música dançandinho o mesmo ritmo. Embalados nas mesmas histórias. Com uma memória afetiva em comum.

Uma banda que está sempre presente e é inatingível.

E essa entidade chamada Sade Adu continua um poço de mistérios para todos nós.

(Mesmo pegando o Drake, né)

o rolê de shilpa ray

Ouve isso.

Shilpa Ray é uma grande contadora de histórias de Nova York. Trombei com essa faixa dois meses antes de voltar para o Brasil e virou meu hino de bota fora da cidade. Nessa vibe de quebrar tudo e oficializar certa antipatia por algumas instituições e perfis da cidade e seus habitantes. Dois dias depois que cheguei ela lançou Door Girl, invocando as sombras de Patti Smith, Lou Reed, Jon Spencer, Blondie, Talking Heads, New York Dolls e outros grandes malditxs do rolê (quem é velhx sabe que o uso do termo “malditx” nesse contexto é bem positivo).

Imagina uma lasanha com suas camadas representando uma época/gênero diferente do rock. Algumas bem estereotipadas e facilmente identificadas, como o punk, rockabilly e o queijo derretido. Outras são mais sutis e fora do foco, mas dão a liga: postura, autoconhecimento e um bom molho. Shilpa Ray é a faca que corta isso tudo em uma matada de larica clássica na madrugada.

Last Year’s Savage é seu trabalho anterior e foi bem elogiado em 2015. Passou batidaço por aqui. Tentei ouvi-lo novamente depois do terremoto de EMT Police and the Fire Department… mas continuou não batendo. Shilpa é engraçadona e tão específica em suas letras, causos e melodias que você pode facilmente ficar fora da rodinha se não estiver preparadx.

Door Girl tem uma vibe mais suja e ácida. Tô no repeat há umas duas horas. Cada repetição reforça a impressão de que Shilpa Ray veio pra contar suas histórias e não fazer amigos.

Se o santo bater nesse disco, vocês serão grandes bróders. Acredite.

https://open.spotify.com/embed/album/6DV3VOHDapKGREdDgjPrly

nostalgia 70

Voltei com a fase MC5 por causa do High Time, de 1971. Justamente o começo do fim da banda. Por mais que tenha sido um disco que não faz jus ao potencial sônico deles, até que tá envelhecendo bem.

Trombei com o disco esses dias. Mais um daqueles sinais de que existe o resgate dos anos 90, assim como da nostalgia dos anos 70 que criamos naquela época. Louco demais isso… como se fosse a saudade da saudade. Ou a saudade do resgate.

Que bom. 🙂

huun-huur-tu na kexp

Tuva: da última vez que eu pesquisei a valer esse país eles tinham como base econômica a caça, sua população era nômade e não existiam estradas para os países vizinhos. Só as trilhas nas montanhas e aviões levam o que rola do mundo exterior para seus homens e mulheres do campo. Essa pesquisa foi feita em 2005. Xamanistas, enterram as placentas das crianças quando nascem, usam pele de cabras da montanha e crina de cavalo como matéria prima de seus instrumentos fabricados da mesma maneira há alguns milênios. E eles cantam como o vento. Essa é a tradição desse país localizado entre a Mongólia e Rússia: o vocal gutural. Os throat singers utilizam músculos da garganta, peito e ouvidos que não utilizamos normalmente. Transformam a cabeça em uma caixa de ressonância orgânica e atingem notas tão graves com a garganta, que o som fica agudo. Cantam no campo, para seus familiares, amigos, lendas e animais. Essa técnica é estudada para tentar resolver problemas de cantores pop, de rock e ópera, segundo o líder do Huun-Huur-Tu revelou nessa apresentação ao vivo + entrevista para a KEXP.

Isso tudo acontecendo em 2017.

A história toda é tão boa que eu não tenho coragem de cruzar as informações para saber se mudou alguma coisa ou se algum fato citado está melhor explicado ou não. Quero manter ela assim comigo:

Brooklyn, março de 2017

Semana passada rolou essa festa com quatro bandas. Foram quatro trios, na verdade. Poderia fazer alguma gracinha buzzfeediana tipo “4 x 3: saiba 12 motivos para ouvir essas bandas”, mas se você está aqui não precisa desse tipo de isca, né?

Né.

Foi aquela velha história de sempre. Um inferninho alternativo (Sunnyvale, em Bushwick) recebeu a festa de um selo pequeno (Exploding In Sound Records) organizada por essa turma que faz festas/shows desse tipo (PopGun Presents). O cenário também era o mesmo. Um galpão preparado para receber bastante gente, palco e equipamento de som bem decentes, um barzão lateral com cervejas baratas e um DJ entediado fazendo aquele setzinho arrastado de abertura. Lar doce lar. Fui recebido assim, depois de atravessar o Brooklyn de ônibus e encarar uma caminhada de quase meia hora na eterna Grand St, com -6 graus de alegria congelando o nariz e orelhas. No fundo, estava bem feliz com esse rolê. Quando a gente sai do país e tem que resolver trocentos problemas diferentes para sobreviver, esquece quais eram as expectativas antes de mudar. Na minha cabeça, o Brooklyn meio que sempre foi isso: dar um rolê sinistro para ver umas bandinhas novas em locais estranhos. No meio de todas as outras novidades que só a vida aqui te traz, eu tinha esquecido disso.

O fato é que durante quase toda essa uma hora de trajeto até lá eu fiquei ouvindo os EPs do Palehound, principal show da noite tocado pela jovem e talentosa Ellen Kempner. Passei o dia todo ouvindo as outras bandas também. A fofura quase R&B do Leapling, os exageros do Haybaby e o moldypeachianismos da Tall Friend (que foi o único show que vi pela metade. Mas é isso aí, a sombra de Moldy Peaches em jovens com cara de tédio tocando linhas simples e quase repetitivas que servem de moldura para histórias estranhas). Tudo muito bem feito.

A primeira boa surpresa da noite foi a Haybaby. Provavelmente o show mais enérgico e ligado de todos. O que eu mais curti. Tudo muito simples e bem resolvido, com um contorno espontâneo de anos 90. Aliás, posso dizer tranquilamente que essa foi meio que a vibe da noite: um resgate bem natural do que rolou há 20 anos, sem forçar barra ou parecer friamente calculado. Olhando pra trás, fica a impressão de que o ponto fora da curva foram os anos 2000, quando bandas alternativas saíram das sombras e ganharam o mainstream, ficando totalmente mal acostumadas e com fãs mais deslumbrados ainda. Foi daora mas meio que matou uma cena alternativa que ganha força novamente. Dentro de seus limites, claro. Um bando de mini-Malkmus com a energia do Nirvana. Exagerados e cheios de poses e causas, mas sem acreditar muito nesse personagem.

A melhor parte de ver essas bandas de moleques e seu público é confirmar que várias bandeiras e posicionamentos debatidos nas redes sociais (sempre elas) tão sendo colocados em prática pela molecada. Porque sim. Porque as coisas são assim e não existe mais volta. Não rola mais sutiã, os sovacos estão cabeludos, guris normais e nerds com unhas pintadas, machismos e conservadorismos são combatidos de forma irônica e não são levados a sério. Galera tá adotando os likes que dominam posts e textões do jeito que convém na realidade.

E tá todo mundo curtindo. Vai ser um verão foda.

A própria Kempner falou em uma entrevista que a próxima figura tipo Kurt Cobain será uma mulher:

I strongly believe that whatever next Kurt Cobain-like figure we end up finding will be a woman, and that’s really exciting. It’s kind of an exciting time, honestly.

E é mesmo.

Foi por essas e outras que vim atrás da Palehound. Sediada em Boston, ela colhe hoje os frutos de uma cena alternativa local bem consolidada pela fofura do Speedy Ortiz. Ao vivo, eles ainda soam como frescos e novos mesmo com quase cinco anos de estrada. E ainda descem do palco para vender camisetas e trocar ideias com a galera. Respondem perguntas estranhas. Agradecem. São acanhados. E se entregam no palco.

 

 

“Pet Carrot” é uma das primeiras composições de Kempner e continua atual. Ela brincou dizendo que na primeira entrevista que deu, perguntaram se a música era sobre sua relação com o vibrador. “Ow, então é assim que é uma entrevista”, concluiu.

Foi o mesmo tipo de bola-fora que eu dei com o baixista da Haybaby. Enquanto ele vendia as camisetas da banda, comentei que eles soavam muito melhor ao vivo do que no estúdio. Ele me olhou com cara de “pô, meu…” mas agradeceu educadamente. Horas depois eu li que eles eram considerados como a “banda mais trabalhadora de Nova York”, que se apresentavam sem parar e demoraram anos para gravar alguma coisa. E esse registro só aconteceu ano passado. Ops.

Mas essa saudável mistura da exposição dos palcos, com política e sintonia com o público é muito mais do que uma cena e/ou modinha e/ou resgate… tá mais para mudança de comportamento mesmo. Aquela desilusão de alguns anos atrás sendo combatida no campo coletivo, aproveitando o rolê e fazendo o bem. Algumas pequenas ações que começam a ganhar a mesma força de grandes singles e discos, porque elas são assim. E não tem mais volta.

 

Bon Iver – 22, A Million / uma resenha

Quem me lembrou que o Bon Iver tinha lançado um disco novo foi uma mina que conheci no Tinder. No meio daquela coisa toda que é considerada PAQUERA hoje em dia, ela disse que não sabia se conseguiria sair do trabalho a tempo de acompanhar a audição pública da nova cria de Justin Vernon. Estava marcado para acontecer em uma festa em Greenpoint, e rolaria simultaneamente em várias outras cidades. A festa em si já era a notícia do dia. Junto com a lembrança de que o disco foi anunciado há alguns dias, no próprio festival de Vernon. Que mundo. Recebi a mensagem no meio da tarde e ela passou batida.

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Na chuvosa manhã de sexta-feira a guria mandou outra mensagem dizendo que tinha perdido o evento, mas o disco combinava com o clima do dia. Faz sentido, na hora lembrei que Justinzão-véi-de-guerra levava a cabana de Wisconsin para qualquer coração solitário que ouvir seu disco em uma manhã chuvosa. Uma fábrica de suspiros e olhares perdidos no nada. Ainda assim, não era minha hora de ouvir o trabalho.

Na chuvosa manhã de sábado (Nova York segue premiada com esse belo começo de outono) eu estava na lavanderia hipnotizado com a roupa que girava prá lá e prá cá com sabão, água, espuma e o reflexo colorido do tênis de uma senhora sentada ao meu lado, quando me liguei que seria a situação perfeita para ouvir o tal disco. Eu tinha tempo, atenção e a dinâmica do ambiente seguia dentro da normalidade. Senhoras dobrando suas roupas, sacos e mais sacos encostados pelos cantos e um cara parecido com o Busta Rhymes flertava com uma guria asiática no que seria o roteiro perfeito de algum filme BBC do Pornhub… Foi aí que começaram os primeiros ruídos de “22, A Million” e meu pensamento instantâneo foi, “odeio esses efeitos em músicas que te dão a impressão de que seu fone de ouvido está com algum problema”. Não zoa.

Quando acabou a primeira música tentei imaginar como devem ter sido essas festas/audições públicas do disco. Imagina que você tá ali do lado do cara e tem que virar pra ele e falar, “daora o disco, meo”. Fiquei meio constrangido em minha silenciosa vergonha alheia… assim como não conseguia responder a pergunta de quando foi que nós perdemos Justin Vernon do radar e ele se transformou nessa versão politicamente correta de Kanye West. Você lembra quando foi isso? No segundo disco? Ao lado da Beyoncé? No EP? Com as crianças da orquestra e os standards de jazz? Em algum Grammy? Saudades da cabana…

Na mesma hora postei isso no Facebook e vi que mais gente tinha feito a relação com Kanye, junto com comentários em pró-qualquer-coisa-que-ele-faça-porque-Bon-Iver-é-amor. Mas Kanye também é amor (próprio).

Começa o processo de tirar a roupa da máquina de lavar e ir até a secadora, o disco já estava na metade e seguia um pouco mais familiar aos ouvidos cansados. Voltei a circular em terreno conhecido… e foi aí que me senti velho. Bon Iver foi o primeiro show que assisti em Nova York, na primeira vez que vim pra cá. Foi em julho de 2008, meses após a descoberta mundial de “For Emma, Forever Ago”. Existia a curiosidade pública de ver o cara que levou o pé na bunda, foi passar uns meses na cabana e voltou com o disco lindo, cheio de texturas metálicas inspiradas em algum clássico de krautrock, brincando com convenções do folk e transformando cada pensamento ruim em falsettos inatingíveis… Foi o show com a plateia mais silenciosa que vi até hoje, mesmo sem ainda saber se é “Bon Aiver” ou “Bon Ivêr”.

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Justin Vernon testa barreiras que acha relevante serem desafiadas nesse novo trabalho. Seja através de um ingênuo deslize ensaiado/fake nas músicas, ou na crença desse patamar overrated onde se encontra atualmente. Eu temia que ele entrasse em um processo parecido com o que rola com a cantora Sia, no qual ela tenta ser tão estranha, mas TAUM estranha… que acaba ficando didática. Mas o cara tá aí, continua desfilando referências para a molecada se identificar e brincar de esconde-esconde em suas músicas, como se fosse uma versão sinestésica do excesso de informação da capa ou da confusão visual nos caractéres dos nomes das músicas. O caso é que Bon Iver continua coerente com toda sua motivação inicial e vive plenamente o ano de 2016. Eu que não saí da cabana e continuo com as roupas limpas.

milhas paralelas: o miles davis de don cheadle

O filme Miles Ahead não é uma biopic. Relaxa. Mas também não é uma super pira ficcional. Fanáticos e grandes fãs podem ficar meio desgostosos com o resultado final, mas a audaciosa estreia na direção de Don Cheadle acerta muito mais do que erra. Saí do cinema com os pontos negativos frescos na memória, mas para cada justificativa, surgia uma resposta positiva para a obra. Tive que digerir bem essa experiência… E isso valeu para também fazer o exercício e avaliar a imagem que tenho dessa principal lenda da música do século XX.

São 100 minutos que apresentam uma história criada para ilustrar um misterioso período de crise do músico, com vários flashbacks baseados em fatos reais. Acompanhamos três momentos diferentes de sua biografia; o maior amor (anos 60), a crise artística (final dos 70) e a reflexão (em algum momento dos bizarros anos 80). Don deixa claro que está disposto a ser experimental na narrativa logo nos primeiros minutos do filme – ancorado a uma fala de seu Miles usada como licença poética, “If you’re going to tell a story, come with some attitude man”. Ele deixa no ar que vai começar um solo quando somos transportados para o filme. Don te pega pela mão nessa hora e praticamente desenha a intenção de que sua obra venha no ritmo e intensidade de um solo do Miles. Chega a ser assustador sacar isso logo de cara… No fim, temos um filme bem comportado e didático, com um tom até meio brega.

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Digo isso porque além de “inovar” no roteiro e direção, Cheadle deu claros sinais de que iria explorar a sua visão do Miles na obra. Além de ter bolas para assumir um trabalho treta como esse, ele escreveu, dirigiu e atuou no filme. Já falou sobre o tamanho do respeito que tem pela imagem e legado de Miles, assim como sempre teve noção de que não seria um projeto fácil. Contou com crowdfunding, foi zoado pela família do músico, penou para encontrar uma saída diferente para o enredo e se expôs. Isso não é fácil e Don tem o respeito de muita gente grande por aí. Mas, quem conhece o básico sobre a vida do trompetista, sabe que cair em algum clichê que vive sob sua sombra é uma tarefa bem fácil.

Esse talvez tenha sido um erro primário da direção de Cheadle. Mesmo sendo cirurgicamente econômico nas fatias escolhidas para o filme – assim como bem desapegado com as infinitas outras histórias e casos do músico (cadê Coltrane? Bird? O Gil Evans não ia falar mais?) – ele insiste em mostrar o tempo todo como Miles era cool. Como o legado deixado por ele ainda é mal compreendido e super transgressor. Mesmo na crise, Miles andava armado e sofria com um coração despedaçado na forma mais badass que esse mundo ja viu. Pinta um quadro e surra um jornalista intrometido ao mesmo tempo. A direção beira o deslumbre com isso.

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Cheadle quer criar uma história na qual Miles Davis interpretaria o protagonista, e piraria nisso. Quase como “Don Cheadle interpreta Miles Davis interpretando esse Miles aí do filme” (lembra dele no Miami Vice?). Uma obra imaginária dentro da obra. A saída é boa e temos um bom filme de ação dos anos 70 com uma puta trilha, diálogos ácidos, lutas de boxe e tiroteio.

Só é sempre estranho ver alguém sendo enaltecido durante um período de crise. Sério demais para ser uma produção feita por um fã e raso demais para apresentar qualquer outra análise sobre o músico. Temos um bom começo, o resto depende de você.

“Miles Ahead” é um filme necessário. Especialmente em um ano que (achamos que) perdemos nomes como David Bowie e Prince.

grandes heróis e caras estranhos

James Murphy é o segundo maior ser humano vivo, e se a primeira coisa que você pensou lendo isso é “Coachella”, pode terminar de ler o texto por aqui e volta para o Facebook.

Nem vi nada do que rolou esses dias no desertão. Sorry, H&M. Mas o retorno do LCD Soundsystem é uma das notícias mais legais do ano e merece ser festejada enquanto Murphy e sua gang estiverem tocando. Tá rolando um vídeo com uns quarenta minutos do que foi seu retorno no primeiro show em Nova York. Webster Hall recheado de kids saltitantes e corajosos com seus telefones levantados.

Esquenta o coração ver esse bando de gente estranha no palco novamente, mexendo em seus brinquedos caros, vintages e complicados… “que fodem nossas almas”. Cada um em um canto do palco, na crua vibe da luz fria de um estúdio ou o final de noite em um pub qualquer. Depois da saidera. Velhos desajustados que usam e abusam das roupas em tons pastéis e cortes clássicos como se você fosse um filme do Woody Allen no CBGB. Nancy Wang não tá mais massa com esse visual Playmobil-eslovaca, mas o James Murphy continua foda. Sofre e carrega nos ombros o peso de toda uma geração que baba seu ovo. Gente como eu e você que realmente o considera como o segundo maior ser humano vivo e quer ser seu amg. Ficou feliz com ele, sofreu com sua partida e achou que podia tentar ir tomar um vinho em seu bar no Brooklyn. Mas ele voltou, pediu desculpas, marcou uma penca de show e já vai lançar um disco novo. Tá tudo bem agora.

Murphy continua sob o carma da eterna indecisão de Losing My Edge e da exposição de suas impotências (saiam daqui jovens de Berlin, Tokyo, França e Londres). O peso de ter dedurado a principal característica de toda uma geração (aquela que ainda sofre de saudades por quase tudo que aconteceu em 2005. Você e eu, de novo, sempre juntos). Foi uma turma que teve o direito de escolher, acertar, se orgulhar do caminho seguido e querer mostrar para todos. Ou não, mas encontra em sua frustração uma forma de tornar positivo o caminho do outro. As boas ações de hoje chegam sob a moldura de um landscape em .jpg e alguma mensagem inspiradora em helvética. Todos ficam felizes assim. Pela frustração da escolha, pelo tédio, pela ausência de grandes descobertas e no paradoxal orgulho pelos frutos colhidos. Você coloca aqui o fato de ter o carro do ano ou o pleno entendimento de um disco do Gil! Scott! Heron! Somos uma geração que pode escolher e abusou/sofreu com isso. Mas considera sua bolha bem ampla e pronta para ajudar o mundo de qualquer maneira. Mesmo que passando vergonha. O LCD sacou o rolê e James Murphy virou o maior letrista do século XXI (até agora). Uma banda punk e irônica travestida de projeto eletrônico. Ou o contrário.

Mas aí eu fico aqui pensando com meus Eus de outras épocas… para um cara conquistar a geração mais nova que veio na sua sequência, ele não pode ser normal. O cara mais velho, que tem um raciocínio claro sobre a molecada, é deslocado de seu tempo. Um cara que não sabe se comportar com sua geração ou com o que lhe foi oferecido. Ou joga isso tudo de forma distorcida, que bate perfeitamente com os mais jovens. Voltamos para Losing My Edge e suas frustrações usadas como Super Trunfo. James Murphy dizendo que está lá, perdendo espaço para os mais novos, a internet dando um olé, mas ele viu isso tudo e conhece essa pá de gente/disco. Mais uma vez usamos o frutos de nossas escolhas como escudos contra o baixo astral. Para se vangloriar ou virar exemplo em algum post de sucesso do facebook. Se você quer ser um ídolo para os mais jovens, precisa ser o cara estranho da sua sala de aula. Do seu trampo. Do seu rolê. Tem que não entender o que está rolando ou sacar uma nova via. Ou simplesmente ter preguiça disso tudo. Infantilizamos o processo com tais desajustados da preguiça. Mas não estamos errados, já que daqui a pouco a Losing My Edge completa uma década e a gente continua sem saber o que quer

Cadê meus amigos agora para conversarmos sobre isso?

Ou:

Sound of silver talk to me
Makes you want to feel like a teenager
Until you remember the feelings of
A real life emotional teenager
Then you think again

Mas tá tudo bem.